O tenente-coronel Hugo Chávez tirou de vez a máscara: passa a governar por decreto durante os próximos 18 meses, tempo suficiente para introduzir as alterações na Constituição que lhe permitam tornar-se presidente vitalício da Venezuela. De caminho, transformou a Assembleia Nacional numa caricatura de parlamento, forçando os deputados a descerem à rua para o aclamarem em públicos hossanas, consagrando aquilo a que chamam "revolução socialista".
"Heil, Hugo", destacou em manchete o vespertino venezuelano Tal Cual. Aposto que dentro de pouco tempo este jornal já não se publicará - como a generalidade do que resta da imprensa livre do país.
Qualquer semelhança entre a "democracia" venezuelana e uma ditadura não é pura coincidência. O general Alcazar, do Tintim, não faria melhor.
Clint Eastwood regressa ao estilo épico, desta vez para nos lembrar o que foi a conquista da ilhota japonesa de Iwo Jima, paga a peso de sangue num período decisivo da II Guerra Mundial. A memória do grande cinema americano passa por aqui – um cinema que oferecia espectáculo mas que também se dirigia à inteligência e não apenas à emoção de cada espectador. No caso deste filme, contemporâneo do absurdo esforço bélico desenvolvido pelos americanos no Iraque, não faltam pistas de análise: a guerra, mesmo quando inevitável, é sempre uma das mais tristes páginas da história humana; nada é mais ambíguo do que um rótulo de herói; nada é mais volátil do que os amores e desamores da “opinião pública”; os guerreiros de sofá jamais falam do que sabem. Herdeiro espiritual de John Ford, Eastwood é um cineasta conservador – na linguagem cinematográfica e também numa certa ideia de América que remonta ao tempo dos pioneiros: mais pura, mais limpa, mais livre. E ainda na forma como ama os actores, tornando-os muito mais do que peças da engrenagem industrial pós-moderna: este elenco que respira talento do primeiro ao último fotograma é um dos melhores ingredientes do filme, que justifica nota máxima. Acabado de estrear mas já um clássico.
“O seu nome não consta da minha lista!”. As palavras do funcionário, tipicamente português na sua arrogância de quem detém um pequeno poder, causaram-me um misto de perplexidade e divertimento. Estive para lhe dizer que tinha sido o próprio primeiro-ministro, um rapaz a quem já adivinhava grande futuro desde os seus alvores albicastrenses, quem me tinha telefonado a insistir para que acompanhasse a sua comitiva na viagem à China. Mas é claro que ele não acreditaria. Ao contrário das dezenas de empresários, políticos e jornalistas que, alinhados em filas certinhas, ele ia chamando para o avião, sempre evitei os holofotes mediáticos. Como explicar-lhe, com os motores já a roncar, o meu longo conhecimento dos ensinamentos de Mao Zedong, como descrever-lhe o pôr-do-sol em Beijing, como contar-lhe em breves momentos os sonhos de toda uma geração? Não havia tempo a perder! Agarrei num cabo atado ao avião e, com uma agilidade insuspeita para o meu 1.60 m por 85 kg, icei-me para o porão das bagagens. Depois, introduzi-me na cabine e consegui um lugar deixado vago por um empresário têxtil que (soube mais tarde) teve que ficar em Portugal porque o sistema de controlo de idas à casa de banho das suas operárias tinha avariado, pondo em risco o futuro da fábrica. A viagem para cá correu bem, tirando um problema: fiquei sem mala, ou antes, com a mala do tal empresário do norte que ficou na pista a ver navios. Ficarei esquisito, com estes fatos dois números acima do meu tamanho. * José Nero Fontão julga que Beijing é a Cidade Proibida
No meio de coisas mais ou menos sérias, deixo aqui a voz meio rouca da Carla Bruni que canta, no meio de livros, na Rive Gauche, partes do seu novo disco.
Falta memória nas Redacções portuguesas. Falta memória na blogosfera portuguesa. Por isso, aceitei comovido o convite que esta rapaziada do Corta-Fitas me fez para trazer um pouco da minha experiência ao convívio dos leitores. Sou do tempo em que o Jornalismo era uma Profissão honrada, em que as notícias eram escritas nas toalhas de papel de uma qualquer tasca do Bairro Alto, não raras vezes manchadas por uma nódoa do tinto que saltava do jarro de barro ou da gordura de uma batata frita mais vivaça. Em que os cotovelos traziam para o jornal as migalhas do papo-seco que nos matava o bicho em tertúlias boémias, entre mulheres de vida difícil, onde a Liberdade do pensamento não se deixava aprisionar pela Censura dos esbirros que então campeavam e que, há que dizê-lo, continuam por aí, ainda que travestidos de democratas. Dou início a esta colaboração com o relato da viagem à China que vou fazer em companhia do primeiro-ministro. A coincidência não poderia ser mais feliz. Também eu fiz parte de uma geração que sonhou com a Revolução Cultural, em mandar pela janela os nossos anquilosados docentes universitários, em denunciar aquela tia reaccionária, em pôr a canga no chefe de Redacção. Durante duas longínquas semanas, partilhei os ideais com o Durão, com a Maotzé Morgado, o Saldanha, o Pacheco, o Coelho, o Lobo Xavier, o Carlos Andrade, o Albano e o Arnaldo Matos e tantos outros. Uma “geração de ouro” da qual me afastei rapidamente ainda hoje não sei porquê. Medo, comodismo, desilusão? Se calhar tudo isso e ainda o facto de ter casado cedo com a minha Célia, já então jornalista de causas, e ter que sustentar a casa em vez de andar em manifs. É portanto esta viagem à China que, na medida das minhas possibilidades e evitando o tema dos Direitos Humanos, irei doravante relatar.
* José Nero Fontão é o único jornalista português que jogou majong com o Bando dos Quatro
Melhor que o Manuel Pinho apanhado a alta velocidade só mesmo o Manuel Pinho com queda para captar investimento estrangeiro. Logo desta maneira e num País que é conhecido pela mão-de-obra barata. Quem tem jeito não esquece. Pinho acelera a alta velocidade para ser remodelado.
O Gato Fedorento também já colocou o seu vídeo tipo-You Tube na RTP1, no seu programa de horário nobre. A grande pergunta, para quem viu, é esta: Ricardo Araújo Pereira, que dá a cara pelo "sim" nesta campanha, faz de Marcelo enquanto humorista ou para ridicularizar o "não" moderado do professor? Quem viu e ouviu bem o texto percebe o que digo. É caso para dizer "gato escondido"... Ainda assim, como diz a malta da bola, o sketch é genial. Agora, o que tinha graça era que Marcelo Rebelo de Sousa respondesse no Assim Não com um vídeo de resposta a Ricardo Araújo Pereira, tal como fez com Francisco Louçã.
O Ministério das Finanças anda atarefado. Achou que devia fazer uma exposiçãozita. Adivinhem sobre o quê...
A Direcção-Geral dos Impostos (DGCI) vai realizar uma exposição itinerante subordinada ao tema da Educação Fiscal. A exposição estará patente no Átrio do Ministério das Finanças, todos os dias úteis, das 8.00 às 20.00 horas, de 1 a 28 de Fevereiro de 2007. Em seguida, irá percorrer o País. Trata-se de uma campanha de educação cívico-fiscal para jovens e de consciencialização para adultos, com que a DGCI pretende contribuir para reanimar o sentido ético e de responsabilidade da sociedade e explicitar os factores que intervêm no contrato social entre o Estado e o cidadão
Muito se tem falado nas últimas semanas dos vídeos de Marcelo Rebelo de Sousa no You Tube, da resposta de Francisco Louçã pela mesma via e do que tudo isso representa em termos de revolução na forma de os políticos comunicaram com as suas audiências, o eleitorado, os portugueses. A verdade é que, a uma velocidade vertiginosa, o próprio Governo - tão modernaço que é - já percebeu que não pode ficar para trás. Para a viagem ofical à China, que decorre neste momento, Sócrates lançou uma espécie de portal intitulado "Missão China 2007", onde colocou um vídeo com a abordagem inicial à visita e que já tem actualizações diárias, com entrevistas (por exemplo a Henrique Granadeiro, presidente da PT). Para hoje está prometido até um blogue feito por pessoas que fazem parte da comitiva. Pela amostra, parece-me que líderes políticos como Marques Mendes, Jerónimo de Sousa ou José Ribeiro e Castro têm de se mexer. Ou perdem a onda...
De madrugada, acordei espontaneamente, alerta. Pode ser a qualquer hora, estará tudo a postos? Sou o primeiro a levantar-me, e percorro a casa, morna e sonâmbula. Ouvem-se respirares desalinhados da minha gente. Aninhados ainda, dormem um sono profundo, ingénuo e inocente. Pela grande janela da cozinha observo o dia que se abre, em tons rosados, todo transparente, implacável. Daqui por mais umas horas, estará cada um, miúdos e graúdos, nas escolas ou trabalhos, uma vez mais empenhados nas suas vidas, nos seus pequenos mundos, pequenas lutas e demais seduções ou conquistas. Entretanto, é aqui em casa que uma pequena revolução se prepara. Encontramos a cada canto uma parafernália diversa que nos anuncia para breve um pequeno Natal. O berço, pintado de céu azul e nuvens brancas, está ali a um canto do nosso quarto. Há mais agitação, risos e nervos, pois. A mais pequena pede mais atenção. A mala está pronta. O telefone toca constante, a família e os amigos querem saber. Ao jantar, a mãe, que já cede à emoção, pede-nos subliminarmente que preparemos os nossos corações. Entre mais uma almôndega e mais puré, os mais velhos aparentam confiança, imunes. Coisa de adolescentes. O facto é que um pequeno e absoluto rei está a chegar. Que tudo baralha e dará de novo. Graças a Deus.
O italiano voltou a levar uma cabeçada. O vídeo tem relato brasileiro, o que dá ainda mais côr a este circo
Este tipo faz-me lembrar os bons velhos tempos dos épicos duelos Fernando Couto-Mozer ou Paulinho Santos-João Pinto. Ao pé destes, o Materazzi é um menino de coro...
VIAGEM A ITÁLIA, 1954. Um casal britânico ruma a Itália para vender uma propriedade de um falecido tio dela. Da propriedade avista-se a baía de Nápoles e a massa imponente do Vesúvio. Dez anos antes registara-se a última erupção digna de nota do vulcão, entretanto adormecido – metáfora perfeita para caracterizar a relação conjugal de Katherine e Alexander Joyce. “Nos teus olhos só vejo cinismo e ironia”, atira-lhe ela, enquanto ele deplora o “ridículo romantismo” dela. Logo no primeiro diálogo que travam, algures numa estrada a cem quilómetros de Nápoles, é fácil detectar os sinais de desgaste do casamento, que dura há oito anos. “É a primeira vez que estamos sozinhos desde que casámos”, lembra Katherine (Ingrid Bergman) a Alex (George Sanders), que reconhece serem “estranhos um para o outro”. Tão estranhos que dormem em quartos separados e não parecem partilhar gostos de espécie alguma. Estranho, para eles, é também aquele país meridional, inundado de luz solar, onde os pares se enlaçam, as brigas por ciúme são frequentes e há sempre uma canção romântica a irromper em fundo. É o país que encantou Byron, Ezra Pound e um jovem poeta amigo de Katherine, Charles Sutton, morto anos antes, vítima de tuberculose, depois de lhe dedicar uns versos que jamais se lhe apagaram da memória.
A ficção imita a vida real – ou será o contrário? O casamento entre Ingrid Bergman e Roberto Rossellini estava também à beira do fim quando o cineasta de Roma, Cidade Aberta rodou esta belíssima Viagem a Itália, uma das suas cinco longas-metragens que a actriz sueca protagonizou. Distantes pareciam já os tempos em que a bela Ingrid, deusa de Hollywood, trocara a Califórnia por Roma, rendida à explosão do cinema neo-realista que tinha Rossellini como mentor. Os americanos não lhe perdoaram a traição, os italianos sempre a trataram como estrangeira. E no entanto Ingrid era a força motriz daquela união com Roberto – uma “criança grande”, como ela lhe chamou nas suas memórias. Também no filme é Katherine quem guia: assim a vemos logo nos momentos iniciais. Ela de olhos fixos na estrada, ele de olhos fechados. À mulher, à vida, àquele país onde o “aborrecimento e o barulho andam a par”. “É necessário que o cinema ensine as pessoas a conhecerem-se”, costumava dizer Rossellini, cultor de uma arte sem artifícios. Não conheço outro filme que exiba com tanta sensibilidade as surdas tensões capazes de abalar qualquer casamento, proporcionando o mais delicado dos retratos de uma mulher apostada em ressuscitar o amor. A mesma que, vendo circular nas ruas de Nápoles várias grávidas e jovens mães empurrando carrinhos de bebés, fala deste modo, com o coração magoado ao pé da boca: “O erro do nosso casamento foi não termos filhos.” Amarga ironia: foi ela quem não quis tê-los.
Viagem a Itália – uma obra que “reconcilia o quotidiano com o eterno”, no dizer de Claude Beylie – está cheia de cenas inesquecíveis. A do breve encontro entre Alex e a triste prostituta que planeara suicidar-se na noite anterior. A magnífica sequência do regresso dele a casa, quando Katherine finge estar adormecida e toda a ambiguidade de sentimentos conjugais se revela ao espectador naquele admirável jogo de luz e sombras. A visita às ruínas de Pompeia, onde ambos caminham sempre separados, sem o mínimo contacto físico, ao encontro dos ossos calcinados de um par surpreendido num abraço eterno, dois mil anos antes, pela lava do Vesúvio. “Encontraram a morte juntos”, surpreende-se ela. O amor também pode ser imortalizado assim. É em Pompeia que Ingrid e George parecem tornar-se finalmente conscientes de que “a vida é breve” (diz ela) e “por isso temos de aproveitá-la” (diz ele). Mas a ressurreição do fogo que julgavam extinto ocorre no mais imprevisto dos cenários: no meio de uma procissão em honra da madonna que atrai milhares de napolitanos. “Como podem acreditar nestas coisas? Parecem crianças!”, admira-se o inglês que esconde sempre as emoções. “As crianças são felizes”, observa a mulher, que acredita em milagres. E é num milagre que culmina este filme que nos fala sempre da terra enquanto nos mostra o céu. Separados pela torrente da multidão, Alex e Katherine acabam por cair nos braços um do outro. É afinal possível que das cinzas renasça o fogo que arde sem se ver? “Creio porque é absurdo”, dizia Graham Greene. Para quem crê, todos os vesúvios se movem. A qualquer tempo, em qualquer lugar.
Viagem a Itália foi exibida sábado, na Gulbenkian, no ciclo "Como o Cinema Era Belo". A exibir na Cinemateca dias 23 (19 horas) e 27 de Fevereiro (22 horas), no ciclo Rossellini.
Se desta vez não houver bandos de pin ups com T shirts a dizer "na minha barriga mando eu" nem distribuição a eito de imagens com fetos mortos já teremos dado um passo decisivo na direcção correcta, nesta campanha sobre o aborto, em comparação com o referendo de 1998. Claro que, entre os que dizem votar sim, há quem persista em fornecer argumentos de bandeja a favor do "não". E também, entre os adeptos do não, há quem esteja mortinho por angariar votos para o "sim". Cada um sabe de si.
1. O PS atrapalha-se a si próprio. De José Medeiros Ferreira, no Bicho Carpinteiro. 2. Cravinho. De Coutinho Ribeiro, n' O Anónimo. 3. Lendo, vendo, ouvindo. De José Pacheco Pereira, no Abrupto. 4. Tão coisa nenhuma. De João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos. 5. Vencedores e vencidos. De José Gomes André, no Bem Pelo Contrário. 6. A nova China e o pensar velho português. De Miguel Castelo-Branco, no Combustões. 7. Warm snow. De João Caetano Dias, no Blasfémias. 8. Orgulho suburbano. De JRP, no Comboio Azul. 9. Adeus a um homem bom. De Leonardo Ralha, no Papagaio Morto.
A incómoda Ana Gomes despachada para o Parlamento Europeu, onde aliás se tornou ainda mais incómoda. Ferro Rodrigues desviado para Paris, como representante português na OCDE. Jorge Coelho e António Vitorino subitamente remetidos à actividade privada, longe dos holofotes parlamentares. Manuel Maria Carrilho enviado para a Unesco. João Cravinho com bilhete de ida para Londres, rumo ao Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, deixando também vago o lugar no Parlamento. Quem será a próxima voz autónoma no PS condenada ao exílio interno ou externo a bem da Nação, de uma legislatura sem ondas e da estabilidade do grupo? Dava um belo retrato de família, este PS de José Sócrates. Pena é que uns quantos parentes não possam figurar na fotografia: por mais respeitáveis que sejam os motivos, a verdade é que vários deles estão ausentes e ninguém faz ideia quando voltam.
Ao contrário do Dr. Marques Mendes, que está preocupado com os softwares informáticos utilizados pelo governo da nação, o nosso 1º sabe o que quer e as armas que tem. Encontramo-lo na página 5 do Diário de Notícias de ontem, de braços abertos, acolhedores e piedosos, meio sorriso todo maternal numa fotografia inocente. Entre as páginas de insistentes e arrepiantes reportagens sobre o bas-fond do criminoso aborto clandestino, o Eng. Pinto de Sousa comoveu-me por uma vez, maternalmente pregando aos jovens um futuro de progresso social com o aborto comercial, livre e apoiado. Higiénico. O seu empenho no redentor e salvífico referendo à liberalização do aborto é admirável, nada é mais importante para a nação, nos dias que passam. Hoje, no DN temos o Dr. Costa, a tempo e corpo inteiro, entre mais ilegais consultórios de morte estrategicamente denunciados. Nada mais.
O trilho está traçado, basta passar os olhos diariamente nos jornais do costume. Assim, estamos bem entregues à propaganda do regime. O grande irmão que fala a uma só voz projecta-se nos “Meios” chamados de “referência”, num coro uníssono do pensamento oficial. Que definham caducos, quais inúteis caixas de ressonância do poder. A nós, restam-nos os blogues, o trabalho gratuito, a cidadania e a coerência. Principalmente depois de 11 de Fevereiro. Para que não fiquem os nossos filhos e os nossos netos definitivamente entregues ao fado de uma civilização materialista, niilista e decadente.
Lisboa, 30 Jan (Lusa) - A emissora católica Rádio Renascença lamentou hoje ser obrigada a passar o tempo de antena do “sim” no referendo sobre o aborto, por considerar que as rádios privadas deveriam ficar de fora desta imposição legal. “Gostaríamos que esta obrigação [legal] não pesasse sobre as rádios privadas, mas pesa e, numa rádio com a identidade da Renascença, pesa naturalmente muito, até porque a nossa posição sobre o aborto e sobre o direito à vida é bem conhecida”, refere a estação numa nota lida hoje, no dia em que começa a campanha para o referendo de 11 de Fevereiro, antes do noticiário das 8:00. Após a marcação do referendo sobre a despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, os responsáveis da emissora católica declararam - também numa nota lida antes de um noticiário - o apoio da Renascença ao “Não”. No entanto, ressalvaram que esta posição da emissora não afectaria o pluralismo do serviço noticioso da RR. Na nota lida hoje, a RR promete cumprir a lei dos tempos de antena e disponibilizar uma hora diária aos movimentos e partidos que participam oficialmente na campanha pelo referendo. “Durante a campanha temos o dever legal de acolher a propaganda de todos. De quem defende o ´não` e dos defensores do ´sim`”, refere a nota, sublinhando que a RR sempre respeitou e respeitará o pluralismo informativo. A Igreja Católica, maioritária em Portugal, é frontalmente contra a liberalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG), que vai ser sujeita a referendo nacional a 11 de Fevereiro.
Vejo Marques Mendesna televisão, num encontro com militantes e simpatizantes do PSD, algures no País. Engravatado, formal, inexpressivo: comparado com ele, Jerónimo de Sousa é um prodígio de carisma. Mas o pior é o discurso, é a mensagem que transmite na tentativa de desgastar o Executivo socialista. "É um Governo de um enorme power point. O problema é o power point dos resultados", diz o presidente social-democrata. Escuto e penso: quem lhe dará os tópicos destes discursos? Quem o convencerá de que esta verborreia oca, própria para colorir círculos tecnocratas, é a mais indicada para mobilizar vontades e caçar votos? Não intuirá que para a esmagadora maioria dos portugueses frases deste género não significam rigorosamente nada? Sócrates também ouve. E se o Estado não fosse laico certamente encomendaria ao padre Melícias uma missa de acção de graças por ter uma oposição assim.
Hoje foi um dia importante para o jornalismo português com o relançamento do RCP como emissora essencialmente informativa. "A rádio renasce depois de um período em que esteve quase morta, acomodada às televisões", disse esta tarde o veterano Fernando Correia - uma das vozes de ouro da rádio portuguesa - aos microfones da nova/velha estação, onde será um dos timoneiros diários (enquanto a perdulária TSF não quer, outros aproveitam). Num ano, as rádios portuguesas perderam 300 mil ouvintes. É fácil perceber porquê, dada a mediocridade reinante. Faço votos para que o Rádio Clube Portuguêsseja decisivo na inversão desta tendência. Abraços ao Luís Osório e ao João Adelino Faria, director e director-adjunto do RCP, e a todos os restantes profissionais daquela casa.
1. Um grande abraço ao Luís e ao Carlos pelo terceiro aniversário do Tugir, um dos blogues cuja leitura diária não dispenso. Parabéns! 2. O António também aderiu às tertúlias literárias, como se comprova aqui. Bem-vindo ao clube.
Sim consumada a obra sobram rimas/ pois ela é independente do obreiro/ no deitar a língua de fora, no grande manguito aos Autores/ é que se vê se a obra está completa/
Mário Cesariny
Há dias, a propósito da morte do Cesariny, alguém defendeu em conversa comigo que a obra é sempre maior que o criador porque o criador desaparece e a obra fica. Mas achei que era um argumento pobre, que não vai à essência. O que eu descubro nestes versos do Cesariny é outra coisa. Sim, a criação, completa, torna-se independente do autor. Autónoma. Destacada. Outra. Pode assemelhar-se ou ser completamente diferente dele(a), mas seguramente liberta-se (deita a língua de fora e faz manguitos). Assim, manifesta em si mesma que o autor(a) agiu por algo maior (tenha ou não consciência disso). Mas isso não nos permite dizer que a obra é, por si mesma, maior que o criador(a). Isso seria uma “coisificação” da arte. A arte só é grandiosa na medida em que se reporta a algo mais que ela, porque não é ela que é eterna, é aquilo que ela diz. E para mim, o que a “obra consumada” diz é Deus.
Cabelos grisalhos e rugas, carinho e café ao lanche. É nisso que penso quando o autocarro da carreira 11 faz o caminho da infância. Sobe a encosta, baloiça no trava e arranca das curvas apertadas, embrulha-me as ideias e agita-me o estômago. Não me dou bem com o movimento. No mar, enjoo; em terra suporto mal os passeios. E é por isso que faço por não esquecer. Vou a caminho da infância, dos braços das minhas tias, do sabor da comida caseira. Em casa, numa casa que conheço desde sempre, estão as mulheres da minha vida. Já estenderam a toalha e puseram a mesa. O almoço espera por mim no fogão. Ainda quente, feito como eu gosto, numa medida certa de tempero e dedicação. Para o lanche, há café e bolachas da Fábrica Santo António. São as minhas preferidas e as tias lembram-se. Ou sabem. Não há em mim gesto, virtude ou vício que não conheçam. Servem-me almoço e histórias, mostram as inovações no jardim e os pintainhos novos no galinheiro. E falam do futuro porque há sempre um em casa das minhas tias. Para mudar a cerca ou construir um muro, para apanhar as ameixas ou o feijão. O ritmo das estações, o tempo das azáleas, a altura de dispor as orquídeas ou de podar as roseiras. O quintal, a casa, os nossos dramas de família, o diz-que-diz. O nosso passado, o que fazemos. Eu, a minha tia Teresa, a tia Conceição, a tia Alice. As primas Adelaide e Vera. Em conversa de domingo, rememorando episódios, de rir ou chorar. Coisas que só nós entendemos. Peripécias, pedacinhos de vida partilhada. Quem mais se lembra das covinhas que os sorrisos faziam à minha cara ou das vezes que entalei os dedos no Fiat 600 verde alface do meu tio Humberto? Onde irei desencantar um desespero como o que provoquei à minha tia Alice quando perdi os sentidos no chão da sua sala? E a devoção da minha tia Conceição no depósito de cinco contos para ajudar nos estudos em Lisboa? As histórias fazem os laços, os laços fazem a família. A mim, coube-me esta, com estas mulheres. E, nelas, na sua força e nas fragilidades, sinto sempre que regresso a casa, ao mundo protegido da infância, a esse país de onde emergimos todos. É por isso que apanho a carreira 11, que suporto os balanços do autocarro e faço que não percebo que a paisagem mudou. As terras foram ocupadas por blocos de apartamentos e construções clandestinas, os carros acumulam-se nas estradas, nos caminhos e becos. Na ronda, a polícia passa multas de estacionamento e, quando desço as escadas para o almoço no aconchego das tias, passo por caras que não reconheço. São os novos moradores. Da voragem, que subiu pela encosta e engoliu o nosso tempo de colheitas e sementeiras, ficou a memória, a família, a casa dos meus avós, os vizinhos de sempre. E o carinho das mulheres da minha vida. De cabelos prateados, rugas no rosto, o coração no mesmo lugar. À minha espera.
Há uns tempos escrevi sobre a extraordinária experiência que é frequentar a Gare do Oriente. A fotografia lá em cima é gira, não é? Foi tirada do site da União Europeia, provavelmente co-financiadora deste gigantesco cadinho de gripes e constipações. O incauto que olhe para aquilo ficará decerto fascinado com a obra-prima de um grande arquitecto. Agora ponham esse incauto lá dentro, com chuva, frio, ruído, sem bancos para se sentar ou um café decente para se proteger. No piso superior, junto às linhas do comboio, é impossível estar porque o vento traz a chuva directinha para as nossas caras, casacos e sacos que nem sequer se podem pousar em cima dos raros bancos (dois ou três) ou do chão molhado. Temos, portanto, a única hipótese de estar no piso inferior, que felizmente não tem chuva, mas o vento traz-nos o frio de todos os lados e é estupidamente desagradável e inóspito. Entretanto os utentes estão acotovelados na meia dúzia de bancos (modernos) que o arquitecto se dignou colocar à disposição do infeliz cidadão que olha para o visor das chegadas e partidas à espera da hora de se pirar dalí. Para além do frio e da chuva, vendo com atenção, aquelas escadas rolantes devem ter sido concebidas para os viajantes inter-urbanos. Só quem não viaja de comboio é que não sabe que um beirão não consegue viajar sem muitos sacos. Quando digo muitos, digo grandes e pesados. Cabem lá as couves, as batatas, a garrafa de azeite, as laranjas, os queijos e os bolos de azeite. Agora imaginem estes nossos concidadãos a descer e a subir as (estreitas) escadas rolantes com esta sacaria. Sim, porque nem só de computador à tiracolo se fazem viagens. Eu já pertenço à geração tupperware, mas viajei com muitas alcofas em que facilmente lhes adivinhava o conteúdo.
Acontece que há pouco tempo tive que fazer mais uma viagem e reparei numa espécie de "aquário"no piso inferior que serve de sala de espera. O envidraçado deve ser para não estragar a estética. A Expo foi em 1998 e só praticamente nove anos depois se lembram de encontrar uma solução que permita minorar o desconforto dos passageiros: a obra primeiro, os homens depois.
Este post é a propósito de quê? Do frio, claro. A notícia do dia. E de um país que também se faz para fora de Lisboa.
Falta pouco mais que um mês e já faço a contagem decrescente para assistir na Aula Magna à recriação de dois históricos espectáculos dos Genesis, Foxtrot (1973) e Selling England by the Pound(1974) feita pelos Musical Box. Tenho os bilhetes bem escolhidos e bem guardados para os dois concertos, nos dias 1 e 2 de Março, quando me irei reencontrar em delírio com umas centenas de doentes "Genesianos" da era Gabriel. Alguns membros desta “irmandade” de fãs, inevitavelmente já os conheço há muito. Será uma vez mais tempo de uma comovida comunhão, revisitando a melhor banda musical dos anos 70. Tempo para cantarmos sílaba a sílaba aqueles loucos e incompreensíveis versos deGabriel, e acompanharmos emocionadamente as guitarras de Steve Hackett e Mike Rutherfordo, o piano e o órgão de Tony Banks, e a bateria de Phil Collins. Pessoalmente anseio pela hora em que vou ver pela primeira vez na vida a actuação em palco do célebre tema Supper’s Ready, uma peça épica de 19 minutos na qual, segundo reza a história, Peter Gabriel depois de vestir a pele do Narciso (na foto), terminando, qual anjo branco, elevado aos céus cantando os versos finais, retirados do Livro do Apocalipse: Theres an angel standing in the sun, and hes crying with a loud voice, This is the supper of the mighty one, Lord of lords, King of kings,Has returned to lead his children home, To take them to the new jerusalém!!! Os Musical Box, são uma banda de tributo canadiana, liderada por Denis Gagné e Serge Morissette que, respeitando os mais pequenos detalhes cénicos e a composição complexa e pouco dada a improvisos da banda original, foram "aprovados" e por diversas vezes elogiados pelos elementos da lendária banda. Há uns anos, quando os Musical Box actuaram em Bristol, receberam um espectador muito especial: o próprio músico, cantor e compositor Peter Gabriel que levou os seus filhos para que testemunhassem um pouco da sua própria história! _
PS: Os Genesis que por aí vão andar este ano numa propagandeada tournée são de outra onda. A onda POP do Phil Collins. Isso tem a sua graça mas não gosto tanto, nem tem nada a ver com a música que atrás refiro. Esses "Genesis" bem podiam ter adoptado outro nome, por respeito ao grupo fundador e à sua histórica obra.
O reencontro com a História proporcionado com a recente deslocação de Cavaco Silva a Goa fez-me lembrar a emoção que eu próprio senti ao desembarcar no aeroporto de Dabolim, em Dezembro de 1994 – 33 anos após a invasão da antiga jóia da coroa portuguesa pelas forças da União Indiana. Cerca de 50 mil lusofalantes vivem ainda em Goa, Damão e Diu, onde se nota um interesse crescente por tudo quanto tem a ver com Portugal. Não o Portugal de antanho, alvo de devotos saudosistas, mas o Portugal contemporâneo, centro difusor de vultos da cultura e de talentos futebolísticos. A carreira de Cristiano Ronaldo, por exemplo, tem sido seguida com imenso interesse pelos jovens goeses, nascidos muito após a nossa expulsão das terras a que Vasco da Gama aportou em 1498. Na capital indiana, infelizmente, há ainda quem franza o sobrolho à simples menção do nome de Portugal, que também encontra algumas resistências muito minoritárias na própria Goa. Mas os laços de sangue que lá deixámos subsistem. Subsiste a religião católica, que os goeses professam convictamente. Subsistem leis, nomeadamente parte do nosso Código Civil de 1867 (entretanto revogado em Portugal já após a invasão) e do nosso Código Penal. E há o peso da História, inapagável. Goa, Damão e Diu permanecem ligados a Portugal através dos naturais do ex-Estado da Índia que aqui residem e que mantêm estreitos elos com os familiares de lá. Nenhuma vontade discricionária de Nova Deli consegue alterar isto. Não admira, pois, que Cavaco e a sua comitiva se tenham sentido em casa ao chegarem a Pangim: foi essa a sensação que também tive. E que me comoveu profundamente. Ao ver a sede do Sporting Club de Goa – sucursal do meu clube. Ao ouvir jovens conversar na rua em português. Ao jantar na casa de uma típica família goesa, no bairro das Fontainhas, onde a marca lusa permanece incólume e os vizinhos comunicam de quintal para quintal no nosso idioma. Ao escutar os apelos insistentes para que lhes enviássemos música portuguesa – fado, em particular. A política centralista da Índia impedia na altura a importação de produtos como o vinho, o azeite ou o bacalhau de Portugal. Exactamente como sucede agora. E no entanto, no Consulado-Geral de Portugal em Goa, o então cônsul António Tânger não tinha mãos a medir na emissão de passaportes. Mesmo que não tencione viajar para Lisboa, o goês gosta de possuir ainda um documento emitido pelo Estado português que lhe confere a nossa nacionalidade. Meio milénio depois, tantos traumas históricos depois, Portugal é mais do que sinónimo de saudade naquelas paragens: é uma ponte permanente com outros mundos. A verdade é esta: por onde passámos, deixámos marca. Uma certa doçura de vida, uma certa bonomia de costumes, um certo sopro de aventura que transportamos nos genes e jamais se apagará.
Aí está: Marcelo Rebelo de Sousa lançou o quarto vídeo no Assim Não e no You Tube. Desta vez chama-se "A Lei Espanhola" e tem novidades no script. Da sala passou para a biblioteca, o cenário de fundo deixou de ser a lareira para se ver agora um imenso friso de livros e mais livros. Nos adereços, destaque para a camisola encarnada e para uma mantinha (a condizer) dobrada em cima do sofá ao lado. Ao Expresso, MRS revelou hoje que está a pensar continuar com a ideia dos vídeos online durante a presidência portuguesa da União Europeia, no segundo semestre deste ano, e, quem sabe, quando voltar à tona o debate sobre o Tratado Constitucional Europeu. A isto se chama marcação cerrada ao Governo...
À atenção do Tugir: Ségolène Royal cometeu mais uma das suas gaffes. Para ler aqui, ali e acolá. Caso seja eleita nas presidenciais francesas do fim do ano, o que duvido, proponho desde já o cognome de a gaffeuse.
P. S. - Agora fora de brincadeiras, parabéns pelos três anos do Tugir. Keep up the good work
20, 13 **** Norte de Moçambique, noite de Natal de 1969. No auge da guerra, a consoada costumava ser um período de tréguas entre o exército português e a Frelimo. Não foi assim naquelas horas em que todas as emoções vieram à superfície: a guerrilha atacou em força, sobressaltando os militares portugueses aquartelados nesse mato do fim do mundo, enquanto um drama paralelo se desenrolava na caserna, espaço concentracionário onde ao curso da guerra se somava a tensão sexual que redundaria em tragédia. O realizador Joaquim Leitão e o produtor Tino Navarro oferecem-nos uma obra memorável – a primeira a abordar os fantasmas do conflito colonial sem os estafados lugares-comuns da praxe, sem contrabando ideológico nem ladainhas politicamente correctas: 20,13 tem uma trama muito bem arquitectada e desempenhos notáveis, reunindo talvez a melhor galeria de actores secundários de um filme português. As cenas de “acção” são credíveis, os diálogos não soam a falso, até os sotaques – pormenor sempre descurado nas fitas lusas – são bem trabalhados: é possível ouvir um minhoto, um alentejano ou um ilhéu com as pronúncias de origem, sem o habitual tom declamatório que não convence ninguém. E há ainda um tabu que se desfaz: a homossexualidade na instituição militar. Tema aqui abordado com rara sensibilidade e notável subtileza - nada muito distante de Reflexos num Olho Dourado, a obra-prima de John Huston, baseada na novela homónima de Carson McCullers, que propiciou a Marlon Brando um dos melhores desempenhos da sua carreira. Houve por cá quem torcesse o nariz ao filme? Claro que sim: certos “críticos” continuam a não perdoar os realizadores capazes de prender a atenção dos espectadores com a narração de uma boa história. Pior para eles: produções como esta revelam que o cinema português está a mudar, reconciliando-se com um público que nunca devia ter afugentado.
1. É um novo blogue, com entrada directa para a nossa lista de favoritos: A Rota da Seda, da Margarida Pinto. 2. Também a Geração Rascaentra a partir de hoje, com todo o mérito, nos endereços de blogues que recomendamos. 3. Zona Fantasma, de Luís Rainha e Jorge Mateus: outro novo blogue a seguir com atenção.
O Pauloe o Rodrigoexerceram o seu direito à indignação, insurgindo-se contra os blogues de esquerda que incluem alguma extrema-direita nas suas listas de endereços. Confesso que também fiquei indignado: por esta não esperava, Joana.