Quinta-feira, 31 de Agosto de 2006
A derrota (ainda) mal digerida
Na entrevista hoje publicada no Diário de Notícias, e a que o João Villalobos já fez referência, Mário Soares revela a António José Teixeira que desde a derrota eleitoral de Janeiro decidiu "fazer uma pausa, de meses largos, para pensar". Interrogado, no entanto, se Manuel Alegre - que o ultrapassou em seis pontos percentuais, conseguindo o segundo lugar nas presidenciais - era afinal o melhor candidato da esquerda, Soares chutou para canto: "Sobre isso há análises diversas. Mas não serei eu a fazê-las." Mais de meio ano depois, teima em não reconhecer uma evidência ditada pelo resultado das urnas. De quantos mais "meses largos" de reflexão precisará para admitir o erro estratégico que cometeu?
De facto, uma notícia triste
A Inês já aqui escreveu sobre o encerramento do semanário O Independente, nos termos exactos em que eu próprio escreveria, e o Francisco também se pronunciou sobre o assunto, hoje muito glosado na blogosfera. Junto-me ao coro só para dizer que me custou entender como é que alguns profissionais da informação acolheram esta notícia com algumas expressões de alívio ou mesmo de mal disfarçado júbilo. O encerramento de um jornal é sempre um facto triste - ainda para mais tratando-se de um título que, queira-se ou não, marcou toda uma geração de jornalistas portugueses.
Impressões musicais (5)

Foi em meados dos anos 50 com o advento da indústria discográfica, e com o apoio da telefonia, que se democratizou o consumo da música. Desde então que falamos da música Pop (de popular). Neste “fenómeno” eu incluo toda uma variada gama de “rótulos”, que vão da simples "Cançoneta" à Música de Intervenção passando pelo Rock ao Folk (lore) até ao Fado, ao Jazz, etc.
Serve esta introdução para dizer que não possuo qualquer complexo ou sentimento de culpa por gostar de pequenas grandes criações do género. Inegavelmente reconheço grandes compositores especialistas no género - os pequenos temas musicais de 3 ou 4

minutos, com simplicíssimas e geniais melodias. Se nos despirmos de “snobeiras” ou preconceitos, admitiremos que gente tão diferente como Lennon e Mc Cartney, Jacques Brel ou Elton John, José Cid ou Sérgio Godinho, Caetano Veloso ou Chico Buarque, Paul Simon ou Paul Anka, deixarão para a posteridade intemporais pérolas musicais e às vezes poéticas; Canções como
Eleonor Rigby, Quand on n’a que l’ amour, Your Song, 20 Anos, Balada de Rita, Leãozinho, Olhos nos olhos, Song for the Asking, ou
My Way, ainda me comovem e não só marcam uma época como acredito que serão recuperadas no futuro, por intérpretes vindouros.

E, caro
João Villalobos, quanta sofisticada música, aborrecida e empoeirada, jaz na minha discoteca, obras que a seu tempo se pretenderam revelações de “arte maior”, liberta e moderníssima? Alguém n’algum dia pegará nessa tralha?
PS: Os exemplos de canções e autores foram uma escolha (convicta) do momento.
Da comunicação

O episódio da escolha do sucessor de José Souto Moura como Procurador-Geral da República tem demonstrado que, talvez por ser Agosto, o Governo de José Sócrates tem cometido os primeiros erros em matéria de política de comunicação institucional. O Governo parece estar a vacilar. O mesmo Governo que muitos consideravam sem mácula em matéria de comunicação governamental - não precisando sequer da central que Morais Sarmento e companhia (muito) limitada queriam montar na Gomes Teixeira no tempo de Durão Barroso. Veja-se: O primeiro-ministro dá uma entrevista a uma televisão onde demonstra que o mais provável é o Governo chamar a si a escolha, sem consultar a oposição. Depois, Vitalino Canas, porta-voz do PS, reforça aquela ideia e garante que "não há tradição, nem regra", que obrigue o executivo a partilhar a escolha com os outros partidos com assento parlamentar. Diz Vitalino que se houver alguma conversa, ela não passa de um exercício de "cortesia". A seguir, sabe-se que Belém prefere os consensos e lembram-se mesmo as palavras de Cavaco Silva durante a campanha e no discurso da tomada de posse. Logo no dia seguinte sabe-se que Sócrates telefona a Ribeiro e Castro e a Marques Mendes (por esta ordem curiosa) para falar do envio de tropas para o Líbano e acaba por introduzir o tema do processo de escolha do PGR.
A seguir vem o pior: Fontes do Governo, supõe-se que oficiais, dizem à Agência Lusa que Sócrates irá falar com todos os partidos e que há, afinal, uma hierarquização da escolha por categoria profissional, dando primazia aos magistrados do Ministério Público e colocando os advogados no fim da linha. Mais umas horas e é o próprio ministro Albero Costa que envia uma nota à agência noticiosa a desmentir "categoricamente" esta última notícia e a dizer que a mesma é destituída de qualquer fundamento. Por fim, o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, acusa "parte da oposição" (o odioso deve ser para o PSD e a deferência para o CDS) de andar a fazer "comícios" com o perfil do futuro PGR. Mais, acaba também por visar certas notícias com "fontes anónimas" e de informação "de corredor". Espantoso. Será que o Governo perdeu o pé na matéria? Ou terá razão Vasco Pulido Valente, quando dizia há dias que este Governo só fala por personagens que possam ser desmentidas quando o primeiro-ministro muito bem entender? Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos... Enquanto isto, a oposição dorme o sono dos justos e não age porque pensa sempre que
alea iacta est. Os dados estão mesmo lançados?
Ainda o fecho do Indy

Manuel Falcão, que foi o primeiro subdirector do jornal (MEC era o director e Portas o adjunto), e o Vítor Cunha (que foi quase tudo naquele jornal, de redactor de política a editor, de editor executivo a director adjunto, até chegar a accionista e vender a sua posição) também já escreveram sobre o assunto.
Aqui e
ali.
A Marta R., por seu turno, revelou a relação que mantinha com o jornal.
Ici.
Os comunistas são nossos "amiguinhos"...
Ainda acham que estou a exagerar?
Então leiam o lancinante testemunho
de mais
uma vítima de Stress Pós-Traumático de Vasco Granja:
O Sr. Vasco Granja, que apresentava o seu programa sempre com um certo ar esgazeado, mostrou-nos milhares e milhares de filmes de animação todos iguais de autores polacos, checos, russos, búlgaros, com nomes ininteligíveis invariavelmente acabados em vsky, vitch ou lev. Estes filmes de animação ficaram popularmente conhecidos por “Konec’s”, pois era a única palavra que conseguiamos ler em todo o filme, para além de ser a mais aguardada pela audiência pois “Konec” quer dizer “Fim” em polaco.
Ao fim de alguns anos e, provavelmente após milhões de cartas de pais, preocupados com os danos físicos e morais que o Sr. Vasco Granja estava a provocar nas crianças de Portugal, este, a contragosto, reabilitou algumas das figuras da Warner, UPA, Hanna-Barbera, etc. As crianças portuguesas exultaram de alegria, mas como diz o ditado, não há bela sem senão, esta alegria durou muito pouco, pois Vasco Granja tinha as piores das torturas preparadas na sua manga, torturas essas que ainda hoje me provocam calafrios.
A primeira consistia na pronúncia dos nomes das personagens: descobrimos que Daffy Duck, popularmente conhecido até então pelo nome de “pato maluco”, se chamava “Páto Dáfi”, Bugs Bunny era o “Bugues Buní”, o cão Droopy era o “Drúpi”, Elmer Fudd era o "Élmer Fude", o Porky Pig era o "Pórqui Pigue", desta razia apenas escapou, por facilidade de tradução e fonética o Gato Silvestre.
A segunda..... era a pior de todas. Vasco Granja contava toda a história do filme antes dele começar. Ainda hoje, me assolam aquelas palavras.... neste filme o Elmer Fude anda a caçar coelhinhos, só que encontra o Bugues Buní, o qual se chega perto dele e diz “ o que se passa doutor?”
O PCP não é nosso "amiguinho"

O
chega para lá a Carlos de Sousa, ainda se desculpa. Agora, aquilo que o PCP se está a preparar para fazer na
Festa do Avante!, que arranca amanhã, é que já não tem remissão! Então não é que os comunistas programaram uma
Homenagem ao cinema de animação na escolha de... Vasco Granja? Não bastou a minha geração? Querem traumatizar a da minha filha? E se a RTP decide recuperar o autor da aterradora frase
"bom dia, amiguinhos!"?
Acham que estou a exagerar?
Cito
Miguel Lopes:
E convidava miudinhos de tenra idade, aí nos seus 5 ou 6 anos, e entrevistava-os! Uma entrevista típica desenvolvia-se mais ou menos assim:
Vasco Granja - "então pequenino, como te chamas?"
Míudo - dizia o nome
VG - "e que idade tens?"
M - dizia a idade
VG - "Então e gostaste dos desenhos animados que mostrámos agora do polaco Miroslav Kusturica?"
M - acena com a cabeça dizendo que sim de forma pouco convincente
VG - "então e gostas dos desenhos animados do búlgaro Pavlov Meszaros?"
M - fica silencioso, com uma expressão entre o embaraçado e o atordoado
VG - "então e do romeno Miklosj Dragulescu?"
M - continua silencioso, ainda com uma expressão de profundo embaraço, e começa a ficar vermelho...
VG - "e então pequenino, diz lá de que de desenhos animados gostas mais?"
M - começava a desbobinar - "do Pernalonga, do Dáfidâque, do bipebipe..."
VG - "ah pois, esses hoje não temos para mostrar, por isso vamos antes ver uns lindos desenhos animados do soviético "Dmitryi Kurchatov..."
Natal é todos os dias
Vá lá, até concedo que a ideia dos dvd's à borla que alguém no marketing do
Expresso teve foi bem bolada, e se lhes vai custar 1,6 milhões de euros (contas feitas pelo
CM) é lá com eles.
Mas, imbatível no campo da prendazinha que nos alicia, é o
24 Horas. Hoje, por exemplo, tive direito ao molde de plástico de pintura da ursa Teresa
*. O efeito disto nas vendas, e dados os milhares de fãs do Noddy por este país fora, só pode ser avassalador. Aguardo com expectativa a confirmação, depois de ver os números da APCT.
* Oferta limitada ao stock existente.
A união faz o blogue
Já que estou em dia de incentivos, aqui fica
esta prenda para os meus camaradas mais preguiçosos em dar ao dedo. Onde estão três, imaginem a equipa toda.
É sempre triste...

Hoje, ainda em casa, recebi uma notícia que me deixou um pouco triste. E até nostálgica. Soube que o semanário
O Independente vai fechar. O jornal que desde há longos anos me faz companhia (confesso que nos últimos tempos fazia cada vez menos) durante o fim de semana, a par do
Expresso, das revistas
Sábado e Visão, dos jornais
Público e
Diário de Notícias... Enfim, coisas de jornalista. Mas voltando ao que interessa. Não é só o facto de o semanário fechar portas que me entristece. Afinal, era uma referência no jornalismo português - também é verdade que cada vez menos o era. É sobretudo o facto de 25 funcionários, entre eles, colegas meus, jornalistas, ficarem assim, de repente, no desemprego. É assustador. Para eles deixo aqui uma mensagem de coragem e de apoio, dentro do que é possível. Não há tempestade que não seja seguida da bonança.
A frase da semana...
...mesmo não tendo ainda acabado, só pode ser esta:
«Gostava de ser ministro da Cultura».
José Cid, à TV7Dias.
Embora estivesse hesitante e quase a escolher esta:
«Dizem-me que o que eu defendo só se pode fazer em ditadura, mas então, para que serve a democracia?».
Medina Carreira, a O Diabo.
Generation Gap
Leio na Sábado e todo eu fico arrepiado até aos pelos do peito. A Joana tem 22 anos e foi «escarificada». Que raio é isso? É «uma técnica de marcar a pele deixando cicatrizes irreversíveis».
E o que decidiu gravar irreversivelmente na sua pele? «30 centímetros de cortes abaixo do umbigo, em carne viva, com a forma de duas caveiras e uma palavra - Psycho».
O que anda a estudar a jovem Joana que se descreve como «boa aluna e boa filha»? Psicologia. Em alturas assim, sinto-me muito, muito velho.
Toque feminino, precisa-se

Camaradas Corta-Fiteiras, minhas ausentes senhoras: Ofereço esta delicada flor-borboleta de folhas diáfanas e frágeis à primeira que voltar a escrever um
post. Estou farto de mim, especialmente de manhã.
Bem sei que é singela e não tem um ar lá muito fresco, mas é dada de boa vontade.
Estou pasmado
O meu grande amigo Paulo Cunha Porto, autor de
O Misantropo Enjaulado (esse blogue onde todos os dias são sexta-feira), leu
O Avante.
Para quem o conhece bem, isto não pode deixar de ser um sinal preocupante dos efeitos irreversíveis da blogosfera.
Importa-se de explicar?
Uma seca, é o que é

Mais uma
notícia cuidada e informada de Pedro Almeida Vieira. Os espanhóis fecham-nos a torneira e deixam sair umas pinguinhas, afectando gravemente Alqueva, albufeira essa que nunca encheu desde a sua inauguração.
A nossa dependência do controle dos rios por parte de Espanha promete continuar a ser, no futuro, ainda mais notória tendo em conta as modificações do clima.
Isto é grave, muito grave. Mas nem por isso debatido o suficiente num país que não tem recursos hídricos que se vejam e depende dos outros e da chuva.
Qualquer dia, como aos índios, só nos resta desatar aos pulinhos e a ulular aos Espíritos. Em espanhol, de preferência.
Eyes wide shut

O melhor e o pior desta
entrevista:
Muito bem,a propósito dos voos da CIA: «Pretender-se não ir ao Parlamento Europeu quando responsáveis de outros países se dispõem a ir, não vejo razões para isso».
Mesmo mal, a propósito da insatisfação dos portugueses: «O parque automóvel continua a renovar-se, bastantes pessoas continuam a passar as suas férias (...) há muitos que continuam a comprar casa no Brasil».
Sem ter pedido autorização ao
Leonardo Negrão, aqui fica a sua excelente fotografia de um ex-presidente caminhando, de olhos fechados para a realidade social que o cerca.
Quarta-feira, 30 de Agosto de 2006
Postais blogosféricos
1. Um grande abraço de parabéns ao Francisco José Viegas pelo primeiro aniversário do seu blogue.
A Origem das Espécies é de leitura obrigatória.
2. Adeus
Cereja, olá
Peixe na Água. Uma das nossas colegas favoritas da blogosfera tem um novo blogue. Vamos continuar a lê-la com a atenção de sempre.
O neto do prior

O André Moura e Cunha, no seu blogue
Porque, anda a seleccionar as melhores primeiras frases da literatura portuguesa de ficção, como já assinalei aqui. Dei-lhe logo o meu contributo, mencionando este arranque - de inspiração existencialista - do excelente romance
Alegria Breve, de Vergílio Ferreira:
«Enterrei hoje a minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira.»Não sei se ainda vou a tempo, mas deixo agora a frase de abertura
d'A Relíquia, um dos romances que melhor ilustra o génio de Eça de Queirós:
"Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em Teologia, autor de uma devota 'Vida de Santa Filomena' e prior da Amendoeirinha."Quem é que resiste a um início destes?
PPM sobre o fecho do Indy

Acabei de ler o
registo sentido do PPM sobre o fecho do Indy. E lembrei-me das notícias, entrevistas e reportagens dele no Internacional. Não era um assíduo da secção - lia mais a Política, com a qual concorri directamente anos a fio, e a opinião -, mas reconheci sempre ali qualidade. No que o PPM, o Vasco Rato e outros foram escrevendo. Sobre o encerramento do Indy, esperemos por sexta-feira para fazer comentários mais direccionados.
Portas, o Prado Coelho da direita
"O regresso de Paulo Portas só fará sentido se o objectivo for a dissolução deste CDS num movimento político mais alargado, mais moderno e com ambição de poder. E que possa ser uma alternativa à Esquerda social-democrata que está neste momento no Governo e à Esquerda moderada que controla ideologicamente o PSD. Se, pelo contrário, Portas quiser regressar para se perder de novo na gestão do pequeno baronato e das altas sensibilidades que poluem o CDS, neste caso seria melhor continuar a ocupar os serões de terça-feira a comentar cinema e livros – sempre se disse que a Direita precisa do seu EPC".
Vítor Cunha, in
AtlânticoOra aí está o VC, que conhece bem a peça, a pôr o dedo na ferida...
Vejo-me obrigado a confessar:
Não só me estou nas tintas para o
Projecto MIT como, pior ainda, não faço a mínima ideia o que seja.
Ainda O Independente

Tendo em conta
isto, e continuando a acreditar que a minha fonte estava suficientemente bem informada para me levar a escrever sobre o negócio de
O Independente, estou muito curioso sobre os desenvolvimentos desta história.
No entanto, como bem sabe qualquer pessoa que tenha feito qualquer negócio na vida, no final o que interessa é por quanto se compra (quando se compra a totalidade) e quem é que manda (quando se compra apenas a maioria do capital).
Adicionalmente, também interessa quanto se herda de dívidas (e neste caso concreto, em moeda antiga, dizem-me que cerca de 700 mil contos). A ver vamos. E cá estarei para fazer a festa, se o jornal continuar e seja quem for que o compre. Como escrevia o outro, há razão e coração. E neste caso, em mim, conta mais o segundo.
Obrigado e um queijo
Recebi hoje as mesmas não sei quantas páginas habituais, que almas supostamente bem intencionadas me enviam com regularidade semestral para a caixa do correio.
Não lhes interessa um chavelho que eu não tenha carta de condução. Para os emissários, o importante é que não seja apanhado em transgressão, por essa «máfia perigosa» que é a polícia das estradas.
Desta vez, o aviso descreve com detalhe onde estão os radares, quais os modelos de carros utilizados pelas autoridades e até, imagine-se, as matrículas. Face a este gesto de solidariedade nacional, só comparável ao cordão humano para a independência de Timor Leste, não há muito a fazer.
São os mesmos que piscam os faróis em jeito de aviso cúmplice para avisar a proximidade da «bófia». São os bem intencionados cidadãos portugueses. Para eles, o meu profundo descontentamento por existirem.
Desafinidades electivas
Caríssimo João. Enquanto ouvias os Genesis com Peter Gabriel, para cujas músicas nunca tive pachorra e cujas letras nunca entendi, o que eu ouvia era
isto. Eu, pecador, me confesso: Hoje classifico isto perto do inaudível. Seja como for, aqui fica a partilha.
Sem Almodóvar
Volver, o último filme de Pedro Almodóvar, estreou-se em Março em Espanha. Quase seis meses depois, continuamos sem vê-lo por cá. Tratando-se o cineasta espanhol de um valor seguro de bilheteira, além da sua inegável valia artística, percebe-se mal a estratégia dos nossos exibidores cinematográficos, que continuam a apostar quase em exclusivo no lixo americano. Estiveram todos estes meses à espera de quê?
Assim dá gosto
Cada vez mais inspirado e acutilante, o João, como se lê
aqui.
Dois buracos

A data para conclusão das obras do túnel do Rossio foi adiada para as calendas gregas. A semana passada, ao passar frente ao Cais das Ex-Colunas, reparei que o prazo anunciado para o final dos trabalhos, exposto nos cartazes,
foi em Março passado.
Como é? Não é obrigatório actualizar a informação? Dados os sinais de vida no estaleiro da obra, equivalentes aos do ainda planeta Marte, estou muito curioso de ver qual será.
Duas imagens valem mais do que...
Já estou a ver o José Falcão a deitar os bofes pela boca depois de abrir o
JN e o SOS Racismo a manifestar-se logo à tarde. O jornal, na sua capa da Edição Sul, ostenta uma fotografia onde um polícia numa mota, com óculos escuros, interroga sobre qualquer coisa um cidadão preto que espreita pela janela (Eu vivi em África e por isso escrevo a palavra «preto» sem complexos).
«Agentes passam a usar motas para vigiar ruas e becos de Alfama», subintitula o jornal.
Como se não bastasse, lá dentro, na abertura do Caderno, vem outra foto. Mas
nesta o mesmo agente da autoridade ri-se desbragadamente ao lado de duas senhoras brancas e gordas (também me recuso a escrever «obesas»), perfeito exemplo da população que a PSP pretende proteger de pessoas, imagino eu, parecidas com o senhor da capa.
Se calhar estou a embarcar numa teoria da conspiração, mas que acho isto pleno de subentendidos, lá isso acho.
Três letrinhas apenas

Uma amiga que colaborará com o novo semanário
Sol saiu de uma reunião desanimada. Em resposta a propostas de reportagem, dizem-lhe que o máximo de texto que o jornal admitirá são 4.000 caracteres por cada peça.
4.000 caracteres para escrever uma reportagem?! Afinal, os 30% de redução de texto do
Expresso não são nada ao lado disto.
P.S. Quem viu algumas das suas páginas impressas disse-me que o Sol «se parece com um 24 Horas a querer ser Correio da Manhã». Confesso que estremeci.
Terça-feira, 29 de Agosto de 2006
O herdeiro do chefe Silva

Ao acaso do
zapping televisivo, tropeço num canal que nunca vejo chamado SIC Mulher. Desta vez demoro-me uns momentos a olhar para aquilo. Porquê? Está lá a figura mais inesperada: Nuno Morais Sarmento, com um fogão à frente, tenta cozinhar alguma coisa. Segundo deduzo, aquilo destina-se a mostrar os putativos dotes culinários do antigo ministro de Santana Lopes. Grande plano do interior da panela: o cozinhado tem péssimo aspecto, mas a senhora que acolita Sarmento mostra-se entusiasmada, desfazendo-se em elogios ao social-democrata, como se estivesse perante o legítimo herdeiro do chefe Silva. Para quem tivesse dúvidas, esta incursão na cozinha da SIC Mulher só confirma que Morais Sarmento "anda por aí", cheio de ambições políticas. Também não é por acaso que surge igualmente numa foto a três colunas da última edição do
Expresso, sob o sugestivo título "Marques Mendes conta com Borges e Sarmento".
Como dizia o outro, isto anda tudo ligado...
Faz sentido, não faz?
Quando
googlamos a palavra Portugal, o primeiro site que aparece na lista é o da Federação Portuguesa de Futebol.
Impressões musicais (4)
Dancing with the Moonlit Knight, trecho do album dos Genesis Selling England by the Pound (1973) ao vivo.
Quando os meus ouvidos não necessitavam de alta-fidelidade, a banda de Peter Gabriel ajudava-me a crescer e a gostar da vida.
E que tal azul às bolinhas encarnadas?
Os enfermeiros da unidade de saúde de Matosinhos entraram em greve. Ao que parece, não gostam de amarelo. Como diriam os Gato Fedorento, usar batas dessa cor faz-lhes baixar a taxa de prestígio. Ou isso, ou não lhes favorece a cútis.
Os enfermeiros também não gostaram que as batas amarelas lhes fossem «impostas» pela administração. Prefeririam, imagino, um plenário para apresentação e votação das várias colecções Outono/Inverno 2006. Entretanto, os utentes (como se diz agora) que se amanhem.
A piada é que os 13% que furaram a greve podem, com dupla apropriação, ser apelidados de «amarelos». Os outros, lamento muito, mas é que nem «vermelhos» têm a desculpa de ser...Só levianos.
Tolerância Zero vírgula tal

Leio no insuspeito
24 Horas que a Direcção-Geral de Viação «enviou um documento para a PSP, para que os agentes apliquem uma margem de tolerância aos condutores em excesso de velocidade», tal como fez com a taxa de alcoolémia.
Isto porque, continua a notícia, «os aparelhos usados pela PSP e pela GNR para medir a velocidade dos condutores não são fiáveis».
Cá para mim, que só vocês me ouvem, a DGV foi infiltrada por perigosos anarquistas que pretendem derrubar o Estado, provocando uma gigantesca insurreição civil nas estradas. Acabou a Tolerância Zero! Viva a Tolerância Zero Vírgula Logo Se Vê. Coitados dos PSPs e GNRs...Assim, nem com apoio psicológico aguentam.
Quem fala assim é inimigo do povo
«Se alguém sente saudades ou nostalgia da Cornélia e daqueles tempos deprimentes em que o único leite com chocolate disponível no mercado era o UCAL, ou bem que lhe dou os sentidos pêsames, ou lhe recomendo uma rápida ida ao médico»Caro Fernando Martins, isto não é coisa que se escreva embora lhe fique bem o tom de jovem iconoclasta. Mas a
Cornélia emparceira, com o
Zip-Zip, como os dois melhores concursos de sempre da nossa televisão.
P.S. Já agora, o UCAL como leite com chocolate não precisava de concorrência para nada. Ainda hoje, aliás, não a tem que se veja. Dito isto, devolvo-lhe os pêsames e recomendo uma leitura nostálgica da revista «Pão com Manteiga».
Milagre em paralelo
Estou completamente de acordo com o que Vital Moreira escreveu hoje no Público sobre a Câmara de Setúbal e com o que Eduardo Prado Coelho escreveu, mesmo ao lado, sobre Gunter Grass.
A fase dos neutros

«Um Manifesto da Direita em Portugal» tem 22 páginas. Acabei de lê-las e tirar a seguinte conclusão: Faltam-lhe (ao Manifesto) tomates.
Bem redigido, o texto aponta os dedos todos ao cenário político pós-25 de Abril, inquinado por uma ideologia oficial e uma Constituição de bases marxistas que todos perfilharam.
Depois, acusa por um lado «alguns» políticos de Direita de contemporizarem com as políticas de Esquerda (não se esclarece quem e porquê, mas adiante) e a Esquerda de se arvorar em concessionária de alvarás de quem é ou não de Direita e Extrema-Direita. Até aqui, a lógica do discurso tem um encadeamento sustentado.
A Nação, o Estado e as dicotomias que separam a velha da nova Direita são apresentadas de forma a delinear a fronteira entre os territórios de uma e outra. De forma polémica, mas pelo menos com clareza e capacidade de síntese e sem lirismos rococós retóricos. Excelente.
Mas, e há aqui um grande mas, o Manifesto diz a certa altura isto: Que «uma Direita consciente de si própria deve ter, como missão primeira, o recentramento do regime». E que isso deve traduzir-se em «induzir neutralidade ao regime, lutando por uma Constituição ideologicamente neutra».
Aqui, pacientes leitoras e leitores, é que a suina torce o rabo. O PND quer uma união da Nova Direita, não para construir um regime de Direita com valores de Direita, mas para o recentrar neutralizando-o ideologicamente. É a sua «missão primeira». A mim, parece-me uma «missão primeira» não só frouxa como desnecessária e nada mobilizadora, porque vácua dos mesmos valores e conteúdos apresentados no manifesto. Ou, dito de uma forma eufemística, uma missão primeira que não os tem no sítio. É pena, porque assim não mobilizam ninguém. Mais ao centro o regime não poderia estar e ideologicamente neutros já andamos nós todos.
Segunda-feira, 28 de Agosto de 2006
Como Vital Moreira vê Setúbal

Vital Moreira não acompanha o "generalizado criticismo" em torno da abrupta demissão do presidente da câmara de Setúbal, Carlos de Sousa. E procura explicar
aqui porquê. Mas ou essa explicação ficou incompleta ou eu terei compreendido mal a conclusão decorrente do seu argumentário.
Vamos por partes.
Diz Vital que os partidos devem manter "um escrutínio sobre o exercício do mandato dos seus eleitos". Muito bem. Resta saber se esse "escrutínio" deve ser feito à revelia dos eleitores, não lhes facultando informações elementares sobre o veredicto a que as luminárias do partido chegaram no seu obscuro critério. Salvo melhor opinião, foi isso mesmo que agora sucedeu em Setúbal: a decisão do PCP, não cabalmente justificada, permite toda a margem de interpretação quanto à conduta do autarca, ainda há dez meses apresentado como modelar pelo próprio partido.
Diz também Vital que "devem ser ressalvados os princípios da transparência e da dignidade dos visados". Achará que esses princípios foram respeitados em Setúbal? Parece que não: de outra forma não diria, como diz, que as "razões" do PCP não foram "transparentes" (o que, presumo, não será propriamente uma revelação para o professor Vital, conhecendo como conhece o aparelho comunista desde 1974).
Em suma, o reputado constitucionalista lamenta o seguinte:
1) Que a "liberdade individual do titular do mandato" não tenha sido respeitada, uma vez que reconhece a existência, neste caso, de "uma imposição" do partido sobre Carlos de Sousa;
2) Que o partido maioritário em Setúbal "não tenha deixado transparecer as razões" que o levaram a afastar o presidente da câmara.
Mas sendo assim, escrevendo o que escreveu, como pode Vital Moreira sustentar afinal que não acompanha o "generalizado criticismo" face ao saneamento do autarca?
P. S. - E uma perguntinha adicional: gostava de saber por que motivo o constitucionalista nunca menciona o nome do presidente da câmara de Setúbal agora afastado pelo PCP. Carlos de Sousa terá lepra?
O cavaleiro branco

O
El Confidencial, sempre bem informado, diz que a Sonae tem na France Telecom (com o Banco Santander envolvido, entre outros) o "cavaleiro branco" para voltar a agitar o mercado e aumentar a sua oferta de 9,50 euros para 10,5 euros/acção na luta renhida pela PT. Uma resposta à propalada unificação das redes fixa e móvel?
Já agora, e na definição medieval a que o
site espanhol inteligentemente recorre, um "cavaleiro branco" opõe-se a um "cavaleiro negro":
"Hace unos meses se barajó la posibilidad de que en caso de que France Telecom estuviera detrás de la oferta de Sonae, Telefónica podría responder con el lanzamiento de una contraopa".