Domingo, 26 de Fevereiro de 2006
Só em Portugal
Benfica-Porto na TV. O País parou.
Guerra de civilizações 10
- Olá.
- Alá.
- Eh lá!
A blasfémia do dia (XIV)
Vai mais um copo?
Não gosto
Das fotos de actores e cantores e futebolistas e quejandos que elas reproduzem com irritante insistência nos blogues. Também não gosto que haja apenas homens aqui no Corta-Fitas (desculpem lá, parceiros, mas é mesmo assim).
Gosto
De ler blogues feitos por mulheres. E de blogues em que as mulheres marcam presença. Gosto muito da linguagem feminina na blogosfera. Gosto do que elas escrevem e da forma como elas escrevem. Mesmo quando não estou de acordo. Gosto da
Miss Pearls, do
Circo Voador, da
Senhora Só, da
Rititi, dos
Tristes Tópicos. Gosto dos textos da Rita Tavares no
Táxi, apesar de ser benfiquista. E da prosa da Joana Amaral Dias nos
Bichos Carpinteiros, apesar de ser bloquista. E do que escreve a Bárbara Baldaia no
Insubmisso. E a Sofia Vieira na
Controversa Maresia. Porque sim.
A entrevista
P. – Olá, Manuel. Já recuperou da campanha?
R. – Quero falar e não posso,
Que a garganta está cansada.
Estou exausto até ao osso
De tanto pó no pescoço,
De tanto povo na estrada.
P. – Que balanço faz das eleições?
R. – Foi fatigante a campanha,
Onde andei com o meu filho.
Lembrei o Torga e o Zenha.
Mas hoje ninguém m’apanha
Sem o dedo no gatilho.
P. – Quer dizer que já retomou os seus hobbies?
R. – A caça pr’a mim é tudo,
Também a pesca me agrada.
Meu soneto é uma espingarda
Apontada ao cabeçudo
Que me quis tornar em nada.
P. – O Mário roeu-lhe a corda...
R. – Mas ri melhor quem por fim
Conquista as graças do povo.
É bestial estar assim:
Tanta cruz no boletim
Fez-me até sentir mais novo.
P. – Planos para o futuro?
R. – E agora, Manuel?
É tempo de Parlamento.
Tempo de pena e papel,
Tempo de seda e pastel.
Vamos curtir o momento!
Sábado, 25 de Fevereiro de 2006
Dicionário de politiquês (VI)
Desculpabilizar. Quando um governante justifica o estado calamitoso do País pela acção nefasta do seu antecessor, que por sua vez já apontara o mesmo a quem o antecedera. Ao jeito do queixinhas da escola primária: "Não fui eu, foi aquele menino!" Felizmente a culpa não morre solteira: afinal quem lixou tudo foi D. Afonso Henriques.
Dicionário de politiquês (V)
Compaginar. Assegurar a coexistência do que há de pior e o que há de muito mau num partido, em nome de "superiores interesses" que ninguém consegue descortinar, só para contentar um conjunto de notáveis nulidades da tribo - do Zé Pascácio ao Conselheiro Acácio.
Nuclear? Sim, obrigados
Já repararam? Ultimamente têm aparecido várias peças jornalísticas em defesa (discreta ou aberta) da energia nuclear em Portugal. Este súbito entusiasmo dever-se-á aos lindos olhos de Patrick Monteiro de Barros?
Guerra de civilizações 9
- O Holocausto nunca existiu!
- Infelizmente o mesmo não se pode dizer da sua mãe.
A blasfémia do dia (XIII)
Coitado, anda abatido. A mulher enfeitou-lhe a cúpula com um par de minaretes.
O dislate da semana
"Não seria leitor do 24 Horas."
(Pedro Tadeu, director do 24 Horas, em entrevista a O Independente de 24 de Fevereiro)
Ponto Come
Nada melhor do que um bom blogue especializado em restaurantes para nos abrir o apetite. É o caso de
Ponto Come, que promete prestar serviço público nesta área. Bem-vindos à blogosfera, companheiros!
A fechar
"Amava o Grande Irmão."
(Última frase do mesmo romance. Tradução: Ana Luísa Faria)
A abrir
"Era um dia claro e frio de Abril, nos relógios batiam as treze."
(Frase de abertura do romance 1984, de George Orwell)
Não roubarás
"O autor destas linhas não rouba, não mente, não encobre, não faz chantagens, não mendiga nem espera. O seu único estatuto é o de homem livre e, sem dúvida que, entre alguns outros recursos, um blogue é felizmente hoje um recurso para um homem livre"escreve o Carlos Albino em editorial das suas
Notas Verbais. Apetece perguntar: afinal quem rouba e quem mente?
Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2006
A blasfémia do dia (XII)
Isso que trazes aí é uma edição de bolso dos Versículos Satânicos ou estás só contente por me veres?
Só em Portugal
- A-tchim!
- Mau, mau. Não me digas que estás com a gripe das aves.
- Se calhar estou mesmo. Ontem comi arroz de pato...
- Não me digas. Se calhar por isso é que tenho esta terrível dor de cabeça. Ontem comi galinha de cabidela.
Por amor de Deus
Debate mensal na Assembleia da República com o primeiro-ministro. José Sócrates, no calor da discussão, utiliza dezasseis vezes a expressão "por amor de Deus". Facto obviamente censurável num Estado laico como Portugal. Mais que isso: trata-se de uma flagrante inconstitucionalidade. Aguarda-se a todo o momento a habitual reacção indignada da imprensa de referência.
Guerra de civilizações 8
- Pareces uma odalisca. Era capaz de voar contigo para Samarcanda.
- Obrigadinha. Mas prefiro que me faças voar para Honolulu.
Aquário
É o signo deste Corta-Fitas. Um bom augúrio.
Revista de imprensa
A melhor manchete da imprensa portuguesa em Janeiro: "Cavaco Alegre" (Jornal de Negócios, 23 de Janeiro de 2006). Parabéns, camarada Sérgio Figueiredo.
As palavras dos outros
"Não foi Marx que mudou a face do mundo. Foi o mundo que mudou a face de Marx." (Nelson Rodrigues, O Óbvio Ululante)
Importa-se de repetir?
"Lamentamos os confrontos religiosos. Considero que qualquer provocação nesta esfera é inadmissível. Antes de publicar ou desenhar algo, há que pensar cem vezes."
(Presidente russo, Vladimir Putine, em entrevista ao jornal espanhol El Mundo)
Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2006
Dicionário de politiquês (IV)
Obstacularizar. Quando, por efeito de diversas causas, um político fica incapaz de obrar.
Dicionário de politiquês (III)
Implementar. Sinónimo de obrar, aplicado à esfera política.
Os provérbios dos ex-candidatos
Garcia Pereira: Mais vale só que mal acompanhado.
Francisco Louçã: Cresce e aparece.
Jerónimo de Sousa: Mais vale um pássaro na mão do que dois pássaros a voar.
Mário Soares: Quem tudo quer tudo perde.
Manuel Alegre: Devagar se vai ao longe.
Cavaco Silva: Ri melhor quem ri no fim.
Entre polícias
- Chefe, já leu? Notícia chata para o nosso chefe máximo hoje neste jornal.
- Eh pá, tens razão. Mas vais ver: ele não tarda a ordenar uma rusga ao pasquim. Estes jornalistas hão-de aprender que quem manda neles somos nós!
Sampaio chorou: snif, snif
Segundo rezam as crónicas, e para manter a tradição que ele próprio inaugurou em 1996, Jorge Sampaio chorou em Timor. Devia antes chorar pelo estado calamitoso em que deixa a Justiça, dez anos depois de ter tomado posse. A mais recente ofensiva da Procuradoria-Geral da República contra o 24 Horas ("de legalidade duvidosa", como bem disse Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo), na clara tentativa de intimidar o jornal, e todos os jornais, devia envergonhar cada agente da justiça portuguesa. A começar pelo chamado "Supremo Magistrado" da Nação.
A blasfémia do dia (XI)
Eu, se fosse a ti, rapava a barba...
Má notícia
O procurador-geral da República ainda é Souto Moura.
Boa notícia
Esta semana a Polícia Judiciária e o Ministério Público não assaltaram nenhum jornal.
A fechar
"Contudo, não pudera fazer o que teria feito com mais vontade: dar a Kullych dois estalos sonoros nas suas faces pálidas e redondas."
(Última frase do mesmo romance. Edição: Guimarães. Tradução: João Costa e Delfim de Brito)
A abrir
"Alguém deve ter caluniado Josef K, porque foi preso uma manhã, sem que ele houvesse feito alguma coisa mal."
(Frase de abertura do romance O Processo, de Franz Kafka)
A ler
Ainda o debate sobre as ameaças à liberdade de informação e a necessidade de haver uma Ordem dos Jornalistas: leia-se com atenção o artigo de Mário Bettencourt Resendes hoje publicado no
DN.
Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2006
Dicionário de politiquês (II)
Consensualizar. Acto político. Ocorre quando um governante vê medrar as suas propostas junto da oposição. E vice-versa.
Dicionário de politiquês (I)
Conceptualização. Momento em que uma ideia começa a medrar na mente de um político.
A blasfémia do dia (X)
Se tirares o véu sou capaz de apreciar melhor os teus neurónios.
Dois críticos à conversa no Pap'Açorda
- Meu caro, o que mais gostou em Brokeback Mountain?
- Da profusão de picos nevados que enchiam a tela numa descarga semiótica. Autêntica simbologia fálica, prenhe de significado. Direi mesmo mais: epistemologia gay, correspondendo aos genuínos sinais do nosso tempo.
- Cinco estrelas?
- Não. Bola preta. Muito aquém das expectativas, caríssimo. Um final demasiado convencional, quase lacrimejante, sem vibração. Ficaram por concretizar aquelas potencialidades abertas pela vastidão de cumes cheios de neve. Só lhe digo: se toda aquela imensa energia fálica explodisse no ecrã, estaríamos perante um novo Metrópolis, quiçá mesmo perante um novo Potempkine. Assim ficou uma xaropada, tipo Música no Coração. Meu Deus, tanta potência desperdiçada!
- Dou-lhe razão. E os pastéis de massa tenra que nunca mais chegam... Esta conversa abriu-me imenso o apetite, vá-se lá saber porquê.
Um ano depois
Dados oficiais: desemprego em Portugal subiu de 6,7% para 7,6%.