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O fiambre e o telemóvel

por Pedro Correia, em 27.03.08

A sala de refeições do hotel estava cheia de estrangeiros, mas percebi logo que aquela mulher só podia ser portuguesa.

Tomava-se o pequeno-almoço e ela não largava o telemóvel.

(As mulheres portuguesas têm uma relação... digamos muito íntima com os telemóveis, só comparável à que os turistas japoneses têm com as máquinas fotográficas.)

 

Entre dezenas de pessoas, apenas aquela mulher mostrava habilidade suficiente para falar ao telemóvel enquanto se abastecia no buffet. Aproximei-me, curioso.

Devia ser assunto importante, aquela conversa matutina, a avaliar pelo ar concentrado e sério da senhora atarracada e anafadinha, que vestia um fato de treino verde-alface e tinha o cabelo de uma cor indefinida, algures entre o muito moreno e o muito louro.

 

O que dizia ela, afinal?

"Segunda-feira. Vamos segunda-feira. Sim, segunda-feira. Voltamos segunda-feira. Pois, pois. Voltamos na segunda. É isso. Segunda."

 

Enquanto papagueava isto, com o telemóvel na mão esquerda, com a direita ia servindo o prato do marido, que se encontrava a seu lado, enchendo-o de fatias de fiambre. Só fiambre, sem mais nada. Cada vez que dizia "segunda-feira", transferia mais umas fatias da travessa para o prato. Reparei no homem: mirava o prato atulhado de fiambre com uma infinita melancolia no olhar. A imagem estampada de um casamento feliz.

 

Afastei-me rapidamente. Mas ainda a ouvi repetir: "Voltamos na segunda-feira."

 

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9 comentários

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De Anónimo a 28.03.2008 às 10:55

Como já aqui tenho referido, fico absolutamente estupefacto ao ouvir (involuntariamente, em lugares públicos, como transportes, cafés, salas de espera, etc) intermináveis conversas sem nenhum conteúdo, vulgo "conversa da treta". Quem pagará aquilo (a empresa?) e não poderiam gastar aquele dinheiro deitado literalmente fora de maneira mais útil?

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