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Cinema Nostalgia (17-II)

por Pedro Correia, em 12.11.07

Peter Bogdanovich escreveu em 1972 esta frase que hoje nos parece uma evidência: “Podemos estar contra as posições da direita de Wayne, mas isso não tem a mínima importância quando analisamos o seu trabalho.” É ainda Bogdanovich, nas páginas de Pieces of Time (um dos mais fascinantes livros sobre cinema de todos os tempos), que elabora o melhor retrato de Wayne como actor: “Uma figura familiar, clássica – inconfundível seja qual for o ângulo -, que se move num mundo de ilusão que conquistou em absoluto”. No fundo, as estrelas de cinema são assim. Nunca interpretam tão bem como quando se interpretam a si próprias. Wayne era genial a fazer de Wayne: o passo lento e bem medido, a fala breve e ríspida, o olhar duro onde ainda perpassa um rasto de candura.
Dirigido por John Ford e Howard Hawks, protagonizou mais obras-primas do que qualquer actor do seu tempo e provavelmente do que qualquer actor de todos os tempos. Fiquemo-nos pelo western: depois de Cavalgada Heróica, rodou Forte Apache, Os Dominadores, Os Três Padrinhos, Rio Grande, A Desaparecida, O Homem que Matou Liberty Valence (de Ford), Rio Vermelho, Rio Bravo e El Dorado (de Hawks). Além de outras que jamais se apagarão da memória de nenhum cinéfilo, como Homens Para Queimar e O Homem Tranquilo (ainda de Ford).
Mas em nenhum outro ele vai tão bem como no seu filme-testamento: O Atirador (The Shootist, de Don Siegel, 1976). Aqui personagem e intérprete fundem-se como nunca: na vida real, Wayne é um homem à beira do fim, devorado por um cancro; o mesmo se passa com o protagonista, John Bernard Books, um mito ainda em vida, sobrevivente do Velho Oeste em pleno século XX. Aquele mundo em que o cavalo dava lugar ao automóvel já não era o seu. Mas Books-Wayne mantinha intacto o lema que o tornara célebre: “Não serei enganado, não serei insultado, não deixarei que outros me deitem a mão.”
Nessa Carson City que já nada tinha a ver com o tempo dos pioneiros, o temível “atirador” confessava afinal à viúva Rogers (interpretada por Lauren Bacall): “Sou um homem à beira da morte, que tem medo do escuro.” Frágil Wayne, vulnerável Wayne, enfim regressado à condição humana neste maravilhoso western crepuscular que marcava também o fim de uma era em Hollywood. John Wayne não voltaria a filmar. O western praticamente desapareceu como género cinematográfico. E nós não voltaríamos a ver cinema com os nossos olhos encantados de meninos.

Publicado no DN

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3 comentários

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De Pedro Correia a 13.11.2007 às 18:27

Pois, JSA. Essa frase do Ford é fabulosa. E sem dúvida que o arquétipo foi criado - à escala americana e não só.
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De JSA a 13.11.2007 às 16:25

E então? Faltou aí o OVNI que foi o óscar, pelo True Grit (Velha Raposa, creio que foi o título em português). Não foi merecido por esse filme, mas foi daqueles de compensação. Gostei particularmente do comentário sobre ele que Ford fez depois de ver Rio Bravo: I didn't know the son of a bitch knew how to act, em referência ao facto de ele sempre se representar a si próprio.

Além de tudo isto, Wayne ainda criou o arquétipo de masculinidade nos EUA por umas duas ou três gerações. Aliás, ainda não desapareceu completamente...
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De Anónimo a 12.11.2007 às 20:37

Um belo e sentido texto.Sentimentos transmutados em palavras.Parabéns e obrigado pela viagem no tempo.

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