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Dois pesos e duas medidas

por Pedro Correia, em 23.12.06
Sem desprimor para os restantes candidatos, sempre em grande número, o prémio da coerência em 2006 merece ser ganho por Ana Gomes. A fogosa eurodeputada socialista, que escreveu este texto no seu blogue quando Pinochet morreu, revela hoje em entrevista ao Sol que perante o falecimento de Fidel Castro a sua atitude será diferente: nada de garrafinhas de champanhe para celebrar.
"Não o ponho no mesmo plano que um Pinochet", esclarece a diplomata na entrevista, conduzida pela jornalista Helena Pereira. Então porquê? Por isto: "Há [em Cuba] aspectos claramente ditatoriais e abusivos dos direitos humanos e outros aspectos extremamente positivos de independência nacional, de afirmação ao nível dos serviços de saúde, educação, que eu não passo em claro."
De facto, não podia ser mais clara: tem dois pesos e duas medidas. Para a democrata Ana Gomes, existem ditaduras boas e ditaduras más. Um regime que viola os direitos humanos pode afinal ter também "aspectos extremamente positivos". Sob o sol das Caraíbas, até os tiranos ganham logo um semblante mais doce...

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20 comentários

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De Anónimo a 28.12.2006 às 11:36

Caro Mário,
É verdade, sempre Clarinha, mas apenas no nome, uma vez que a minha ascendência africana (Angola) me leva a orgulhosamente ostentar a escura pele.

Apenas mais um reparo (como tu dizes, não parece muito frutífera a discussão, interpreta-se calor e convicção com ferocidade e não se vai a lado algum).

Mas há um terrível erro (no meu entender, é claro) no teu pensamento: é que, ao contrário do que afirmas, essas apontadas ditaduras (Franco e Pinochet, apesar de ciosas das suas elites, conseguiram exactamente disseminar, alargar, fazer comungar a riqueza e privilégios (que deixam de o ser) por um largo número de cidadãos, a classe média claramente proponderante a que fiz referência no post anterior. No lado oposto, as ditaduras comunistas, reservaram sempre para as suas elites (não económicas, mas tecnocratas ou partidocratas) os privilégios todos (nalguns casos mesmo chocantes, como acontecia na Roménia, na URSS ou na RDA), até ao fim dos respectivos regimes, ou, no caso de Cuba ou Coreia do Norte (apesar de não comparáveis), até hoje.

E, finalmente, enganas-te: de status, pouco tenho a defender... com a ajuda dos "teus" amigos cubanos, o que a minha família tinha em Angola, fruto de trabalho muito e feroz tenacidade no furar do status quo branco colonial foi-nos roubado e entregue às tais elites partidocratas.

E tens razão, a linguagem é de esquerda, porque de esquerda sou, meus pais foram, e sempre serei. O que não sou é estúpida e tento ser intelectualmente honesta.

Um bom 2007 para ti.

Clara
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De Mário Ponte a 27.12.2006 às 15:50

É muito "clarinha", graças a Deus, a instintiva reacção na defesa de interesses de classe, traduzida numa linguagem esquerdista e retrógrada que já fez história.
Não me interessa esgrimir argumentos, porque cada um pode interpretá-los sempre à sua maneira, mas de ler na alma das entrelinhas. Há sempre mil leituras dos factos e quando não há distanciação suficiente, cada qual decifra-os como quer ou deseja. Estaríamos horas a esgrimir considerandos e se calhar, pelos indícios, insultos de “patotilha”. Nunca mais seguirei por aí, porque nessa área já fiz tirocínio que baste.

O que quero salientar é que avulta em certas alegações um imenso ódio a qualquer tentativa de resolver as desigualdades sociais de uma forma mais justa, mais humana. Admitindo que tais tentativas falharam, seria desafectado dizer que a intenção era a melhor, que os ideais não se cumpriram mas eram generosos…que talvez um dia, quando o Homem compreender que o darwinismo selvagem é o dos animais irracionais. Este défice é a mácula que sempre encontrei nos ferozes (até na linguagem) defensores do status e é paradigmático e revelador de uma índole, que não subscrevo e sempre combaterei.
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De Anónimo a 27.12.2006 às 11:47

A esquerda urbana e a sua pacotilha de café no seu melhor. É notável ! Como sempre, democratas e tolerantes, mas apenas para quem com eles concorda.

Cuba, um dos países mais pobres da américa latina, onde não existe qualquer possibilidade de expressão de qualquer tipo de individualismo, com uma das mais altas taxas de prostituição, vendida aos turistas e aos seus dólares que afinal não são maus de todos, onde a instrucção apenas serve se usada no que o regime entende... elogios e mais elogios, grande homem, o Fidel, de facto, não há muita liberdade, mas tirando isso, que país maravilhoso.

Depois, o Chile, desse tenebroso Pinochet. É claro que hoje é de longe o país mais evoluído da américa latina, com um maior nível de bem estar económico social, com uma maior e proponderante classe média, com, pasme-se, uma democracia devidamente implantada e liberdade exemplar para os seus cidadãos. Mas, o Pinochet era uma besta, claro. Mesmo se se submeteu ele próprio a um referendo, mesmo se aceitou o resultado e largou o poder, mesmo se a transição funcionou pelo melhor que há.

Não vale de facto a pena a discussão. A maioria de gente da esquerda padece de um autismo desconcertante, para mais voluntário e assumido.

Pena é que lhes não ofereçam uma estadia prolongada na Cuba castrista, lhe tirem todos os bens materiais que orgulhosamente ostentam (fruto das sociedades civilizadas, não são importantes, dizia um dos comentadores), precisassem de um par de óculos e estivessem um ano, nessa Cuba onde todos têm acesso à saúde, para os obter.

Clara
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De Mário Ponte a 27.12.2006 às 11:02

Lamento que algum fanatismo não consiga ver o que há de bom no regime cubano. Ao menos podiam dizer "Apesar de ser um regime ditatorial...tem isto e aquilo que merece ser aplaudido". E a comparação com as ditaduras de Pinochet e de Franco...quase não merece comentários. Então não se enxerga que as máquinas económicas, nos casos referidos, foram recuperadas para serem colocadas ao serviço de elites possidentes? Há alguma comparação com o alcance social de medidas na área da educação, saúde, desporto, etc., implementadas em Cuba? E, já agora, alguma vez seria possível implementá-las sem coacção e sem recurso a medidas autoritárias? Os antigos donos de Cuba teriam permitido? Enfim, acho que não é difícil distinguir, sob o ponto de vista moral, a autoridade cubana das ditaduras que referem.
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De Anónimo a 27.12.2006 às 11:01

O camarada Sócrates já deve ter há muito acrescentado um item às «not to do things»: não permitir que a desbocada seja mais alguma vez candidata pelo PS seja a que fôr.
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De Anónimo a 26.12.2006 às 15:21

Oh Margarida, se aquilo é tão bom, concerteza que o Raul não terá nada a temer se organizar umas eleições livres e democráticas, pois não? Só mesmo um idiota ou um ignorante (e em Cuba de certeza que já não há disso, uma vez que têm toda a gente nas Universidades) não votaria no glorioso PCC que trouxe tanta felicidade a toda a gente...
Miguel
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De Margarida a 25.12.2006 às 19:59

Vejo que o Luís Serpa também leu o livrinho do Abel Prieto, "O Humor de Misha". Fez bem, aliás o Abel Preieto além de estar a ser um óptimo ministro da Cultura de Cuba, é um intelectual engajado e lúcido, mas a época a que se refere essa anedota felizmente já lá vai, foi a do tempo em que praticamente de um dia para o outro os cubanos ficaram sózinhos sem compradores para o seu açúcar e sem fornecedores de quase tudo, particularmente de petróleo e bens alimentares. Como deve saber, conseguiram dar a volta e no fundamental ultrapassaram as tremendas penúrias dessa negra década de 90.
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De Luis Serpa a 25.12.2006 às 12:13

Cuba resolveu três grandes roblemas: a educação, a saúde e a independência nacional. Agora, já só tem três pequenos problemas por resolver: o pequeno almoço, o almoço e o jantar.
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De Anónimo a 25.12.2006 às 01:38

o blogue timor-deste.blogspot.com é que topa a Ana Gomes
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De Margarida a 23.12.2006 às 22:54

Cem por cento da população cubana tem acesso gratuito aos serviços de saúde. Há um médico para cada 160 habitantes, e o melhor per capita mundial de enfermeiros, professores e medalhas de ouro olímpicas. A taxa de mortalidade infantil em Cuba é de 5,8 para cada mil nascidos vivos. Se a América Latina tivesse essa taxa de mortalidade infantil, em cada ano seriam salvas 800 mil crianças.

Em Cuba, o acesso à educação em todos os níveis é gratuito e não há analfabetismo. Actualmente entre estudantes e professores as universidades cubanas são frequentadas por 600 mil cidadãos.

No mundo, dormem nas ruas 200 milhões de crianças. Nenhuma delas é cubana. Cem milhões de crianças de menos de 13 anos são obrigadas a trabalhar para viver. Nenhuma delas é cubana.

Mais de um milhão de crianças são levadas à prostituição infantil e dezenas de milhares têm sido vítimas do comércio de órgãos. Nenhuma delas é cubana.

Trinta mil crianças morrem diariamente no mundo de doenças como sarampo, malária, difteria e pneumonia, assim como de desnutrição. Nenhuma delas é cubana.

Dezenas de milhares de médicos cubanos têm levado saúde e esperança aos mais longínquos recantos do mundo; milhares de professores cubanos levaram seu saber e a luz do conhecimento a outras terras; dezenas de milhares de jovens de mais de cem países formaram-se em universidades cubanas, e outros tantos estudam hoje como bolsistas em Cuba. E ainda dizem que Cuba viola os direitos
humanos?

Se o João Távora me fizesse o favor de trocar por miúdos as “prisões, assassinatos e exílios” eu agradecia. Mas concretamente, factualmente.

Penso que não se pode negar que os USA têm “saúde financeira”, contudo 40 milhões dos seus habitantes não têm qualquer cobertura de saúde. Em Cuba qualquer cidadão pode propor-se a ser candidato nas eleições (locais, estatais, nacionais), contudo as oposições têm seguido o conselho dos USA e em vez de concorrerem ficam de fora tentando boicotá-las. E depois queixam-se de falta de liberdade e de justiça, Tiago Alves, quando são eles próprios que se põem de fora do sistema?

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