Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007
Um cronista de regresso ao futuro

Falta memória nas Redacções portuguesas. Falta memória na blogosfera portuguesa. Por isso, aceitei comovido o convite que esta rapaziada do Corta-Fitas me fez para trazer um pouco da minha experiência ao convívio dos leitores. Sou do tempo em que o Jornalismo era uma Profissão honrada, em que as notícias eram escritas nas toalhas de papel de uma qualquer tasca do Bairro Alto, não raras vezes manchadas por uma nódoa do tinto que saltava do jarro de barro ou da gordura de uma batata frita mais vivaça. Em que os cotovelos traziam para o jornal as migalhas do papo-seco que nos matava o bicho em tertúlias boémias, entre mulheres de vida difícil, onde a Liberdade do pensamento não se deixava aprisionar pela Censura dos esbirros que então campeavam e que, há que dizê-lo, continuam por aí, ainda que travestidos de democratas.
Dou início a esta colaboração com o relato da viagem à China que vou fazer em companhia do primeiro-ministro. A coincidência não poderia ser mais feliz. Também eu fiz parte de uma geração que sonhou com a Revolução Cultural, em mandar pela janela os nossos anquilosados docentes universitários, em denunciar aquela tia reaccionária, em pôr a canga no chefe de Redacção. Durante duas longínquas semanas, partilhei os ideais com o Durão, com a Maotzé Morgado, o Saldanha, o Pacheco, o Coelho, o Lobo Xavier, o Carlos Andrade, o Albano e o Arnaldo Matos e tantos outros. Uma “geração de ouro” da qual me afastei rapidamente ainda hoje não sei porquê. Medo, comodismo, desilusão? Se calhar tudo isso e ainda o facto de ter casado cedo com a minha Célia, já então jornalista de causas, e ter que sustentar a casa em vez de andar em manifs. É portanto esta viagem à China que, na medida das minhas possibilidades e evitando o tema dos Direitos Humanos, irei doravante relatar.
* José Nero Fontão é o único jornalista português que jogou majong com o Bando dos Quatro

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publicado por José Nero Fontão às 16:49
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10 comentários:
De Anónimo a 1 de Fevereiro de 2007 às 03:10
Desejo que o sr. Fontão veja o que é a verdadeira China. O que Mao deixou: um povo na miséria. Os milhões que dormem à volta das estações de comboios das cidades como Cantão. Os milhões que têm fome por terem deixado o campo onde já não há trabalho. As centenas de milhares de mulheres que vendem o corpo por um telemóvel. O capitalismo selvagem das discotecas, dos Ferraris e dos Mercedes. Os generais que são proprietários de milhares de fábricas e que depois gastam milhões de patacas nos casinos de Macau. A cidade de Shanghai que abre a boca de espanto mas onde milhões foram empurrados para a periferia a viver na miséria. A corrupção que atinge todos os dirigentes do Partido ainda dito Comunista. Fontão abra bem os olhos porque nem todos somos cegos.


De Cristina Ribeiro a 31 de Janeiro de 2007 às 19:57
Uma promessa de boas crónicas.


De Anónimo a 31 de Janeiro de 2007 às 19:36
Óptima estreia.


De Anónimo a 31 de Janeiro de 2007 às 18:00
O Sr. Távora está a precisar de um Rover novo, daqueles que agora se fabricam lá pela China... Talvez possa vir algum na bagagem da comitiva...


De Anónimo a 31 de Janeiro de 2007 às 17:49
Com essas comezainas no Bairro Alto vai ser difícil relatar o jogging do Sócrates (a não ser que se disponha de uma bicicleta motorizada...)


De Anónimo a 31 de Janeiro de 2007 às 17:47
Calha bem, e eu sou o único Anonymous que jogou à bisca com a D. Carolina Salgado, nos bons tempos do Calor da Noite.


De Anónimo a 31 de Janeiro de 2007 às 17:17
E não abuse do vinho tinto!


De João Távora a 31 de Janeiro de 2007 às 17:11
Bem-vindo José. Boas prosas.


De MissPearls a 31 de Janeiro de 2007 às 17:10
Olá
Agora até me assustei e tive que ir ver se estava no Corta-Fitas.
Seja muito bem vindo.
Isabel
:)


De Anónimo a 31 de Janeiro de 2007 às 17:07
Força! (mas isso de o jornalismo ser bom mesmo quando "as notícias eram escritas nas toalhas de papel de uma qualquer tasca do Bairro Alto, não raras vezes manchadas por uma nódoa do tinto que saltava do jarro de barro ou da gordura de uma batata frita mais vivaça" acho um tanto desajustado - para não dizer outra coisa).


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