
Há uns tempos escrevi sobre a extraordinária experiência que é frequentar a Gare do Oriente. A fotografia lá em cima é gira, não é? Foi tirada do site da União Europeia, provavelmente co-financiadora deste gigantesco cadinho de gripes e constipações.
O incauto que olhe para aquilo ficará decerto fascinado com a obra-prima de um grande arquitecto. Agora ponham esse incauto lá dentro, com chuva, frio, ruído, sem bancos para se sentar ou um café decente para se proteger.
No piso superior, junto às linhas do comboio, é impossível estar porque o vento traz a chuva directinha para as nossas caras, casacos e sacos que nem sequer se podem pousar em cima dos raros bancos (dois ou três) ou do chão molhado.
Temos, portanto, a única hipótese de estar no piso inferior, que felizmente não tem chuva, mas o vento traz-nos o frio de todos os lados e é estupidamente desagradável e inóspito. Entretanto os utentes estão acotovelados na meia dúzia de bancos (modernos) que o arquitecto se dignou colocar à disposição do infeliz cidadão que olha para o visor das chegadas e partidas à espera da hora de se pirar dalí.
Para além do frio e da chuva, vendo com atenção, aquelas escadas rolantes devem ter sido concebidas para os viajantes inter-urbanos. Só quem não viaja de comboio é que não sabe que um beirão não consegue viajar sem muitos sacos. Quando digo muitos, digo grandes e pesados. Cabem lá as couves, as batatas, a garrafa de azeite, as laranjas, os queijos e os bolos de azeite. Agora imaginem estes nossos concidadãos a descer e a subir as (estreitas) escadas rolantes com esta sacaria. Sim, porque nem só de computador à tiracolo se fazem viagens. Eu já pertenço à geração
tupperware, mas viajei com muitas alcofas em que facilmente lhes adivinhava o conteúdo.
Acontece que há pouco tempo tive que fazer mais uma viagem e reparei numa espécie de "aquário"no piso inferior que serve de sala de espera. O envidraçado deve ser para não estragar a estética. A Expo foi em 1998 e só praticamente nove anos depois se lembram de encontrar uma solução que permita minorar o desconforto dos passageiros: a obra primeiro, os homens depois.
Este post é a propósito de quê? Do frio, claro. A notícia do dia. E de um país que também se faz para fora de Lisboa.
De José Gomes André a 29 de Janeiro de 2007 às 18:16
Obrigado pelo post, esta denúncia há muito que devia ter sido feita. A Estação do Oriente é uma aberração. As estações, por definição, são para utilização pública, pelo que os critérios para a sua projecção devem ser o conforto e funcionalidade.
Querem fazer obras que se estejam nas tintas para o público? Pintem quadros e façam esculturas. São arquitectos? Dediquem-se ao planeamento de fontes e bebedouros, sempre chateiam menos.
Bem Pelo Contrário (http://bempelocontrario.blogspot.com/)
De Nlpn a 29 de Janeiro de 2007 às 16:17
O Calatrava já uma vez explicou que (não juro que o texto seja este, ipsis verbis, mas a ideia era esta, "as estações de comboios são locais de passagem, não são para ser confortáveis."..
Aposto que se o idiota precisasse de as utilizar, pensava 3 vezes antes de fazer aquela bela m**da..
De Ernesto de Castro a 29 de Janeiro de 2007 às 14:39
Tem toda a razão e esta é daquelas observações que, com rara felicidade, encontram logo milhares de pessoas e dizer que sim com a cabeça porque há anos que têm aquela experiência.
De qualquer forma, embora com um inacreditável atraso, os tais aquários pelos menos foram uma medida óbviamente positiva, embora eu possa testemunhar que aquela obra de «chacha» em termos de construção civil levou mais de seis meses a fazer !
O já falecido deputado do PCP João Amaral disse quando a Gare do Oriente foi feita que se tratava do «apeadeiro mais caro do mundo».
Hoje creio que exagerou porque o interface de transportes está lá e é útil e por alguma razão aos fins de semana aquela estação é um oceano de gente (que deve ter deixado de usar Santa Apolónia).
Para terminar, só lembrar que a belissima obra do Calatrava acabou por ficar muito prejudicada por que, vista de uma certa perspectiva, é «assassinada» pelas duas grandes torres imobiliárias que tem por detrás.
De MissPearls a 29 de Janeiro de 2007 às 14:19
Obrigada.
Sim, Susaninha,esqueci-me da questão da (in) segurança. De facto, também nunca tive problemas por causa disso. Uma sorte, diria eu, porque nunca lá vi polícia nenhum e aquelas colunas e recantos são muito jeitosos para a ladroagem.
Tem razão: a estação de Santa Apólónia está pessiamamente servida de transportes, por isso é que costumo usar a Gare do Oriente, construida numa zona extremamente ventosa. Aquilo era bom para a California, mas não para Lisboa.
São as obras do regime...
De H.R. a 29 de Janeiro de 2007 às 12:33
No ponto Miss Pearls. Mais uma grandiosa obra do nosso país que deixa muito a desejar.
De Pedro Correia a 29 de Janeiro de 2007 às 12:30
Excelente. Oportuno. E dá muito que pensar.
De João Távora a 29 de Janeiro de 2007 às 09:24
Grande e pertinente posta Isabel. Há tantas imbecis veleidades arquitectónicas… Todas elas intervencionistas e plenas de “contemporaneidade”.
De Susaninha a 29 de Janeiro de 2007 às 08:31
Revi-me inteiramente nas suas palavras. Durante 3 anos, utilizei a Estação do Oriente, pelo menos 2 vezes por semana e ao fim do dia, quando faz mais frio. E acrescentaria a sensação de insegurança (embora nunca tenha tido nenhum problema) que tantos recantos e colunas criam.
Infelizmente, a estação de Sta Apolónia não está servida de transportes urbanos suficientes para que possa servir de alternativa.
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