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Estrelas de cinema (8)

por Pedro Correia, em 15.11.07

A ESTRANHA EM MIM ***
Quando as estruturas do Estado falham, é moralmente aceitável, e mesmo legítimo, fazer justiça pelas minhas próprias mãos? É esta a questão central de um estimulante filme agora em cartaz entre nós – The Brave One, que recebeu em português um título bem mais interessante do que o original: A Estranha em Mim.
A “estranha” é Erica Blair, uma citadina a meio da vida, a meio da escala social, a quem um bando de energúmenos rouba para sempre a oportunidade de ser feliz. Matam-lhe o namorado, deixam-na à beira da morte. Aconteceu com ela, poderia acontecer com qualquer de nós.
A recuperação é demorada. E a Erica que sai do hospital pouco ou nada tem a ver com a Erica anterior. É uma mulher dilacerada, torturada, obcecada pela vingança. Esta obsessão amplia-se quando é confirmada a ineficácia das forças policiais.
A partir daí, passa a travar o seu combate solitário contra as forças do mal. Um combate que não a redime de nada, mas que ela executa com a voracidade de um anjo vingador. Os tempos são propícios a esta cartilha do “olho por olho, dente por dente”: só sobrevives se adoptares a conduta moral de quem te pretende destruir.
A Estranha em Mim podia ser um vulgar fita de “acção” ou de suspense feita a pensar no consumo acelerado de pipocas. Mas destaca-se da mediania em boa parte graças à interpretação de Jodie Foster, que encarna na perfeição a personagem de uma mulher dual, vítima e verduga, estigmatizada pela violência urbana hoje sem fronteiras definidas.
O carácter simbólico da trama é destacado pelo experiente realizador irlandês Neil Jordan, que nos introduz numa Nova Iorque baça e densa, quase desfocada, quase irreconhecível. A banda sonora sublinha o desenrolar do drama interior de Erica com uma intensidade semelhante à partitura composta por Bernard Herrmanm para acentuar o errante itinerário do Travis Bickle de Taxi Driver (1976) – uma longa-metragem estranhamente simétrica a esta, aliás intensificada pela aparição de Jodie Foster em ambos os filmes. Repare-se no tema “Answer”, de Sarah McLachlan: “If it takes my whole life / I won’t break, I won’t bend / It will all be worth it / Worth it in the end.”
Mas o melhor desta A Estranha em Mim – melhor ainda do que a extraordinária interpretação de Foster – é o seu subtexto, com evidentes alusões à atmosfera política e social posterior ao 11 de Setembro de 2001 e aos demónios que se soltaram nesta data, transformando a nossa vida para sempre.
Neste preciso ponto situam-se, no entanto, também alguns dos aspectos mais equívocos deste filme, que parece justificar primitivas e demenciais formas de violência em nome do instinto de sobrevivência inerente à condição humana. Neste aspecto, A Estranha em Mim tem múltiplos antecedentes, que remontam aos dirty westerns de Clint Eastwood, na pele do justiceiro implacável que chega à cidade montado num cavalo negro, à série de fitas protagonizadas nos anos 70 por Charles Bronson, vingador solitário ainda sem as circunstâncias atenuantes em vigor no mundo pós-11 de Setembro.
Nós, espectadores, tendemos a simpatizar com Erica Bain e a secundá-la nos seus propósitos de erradicar o mal daquela cidade (de todas as cidades) patrulhada por uma legião de polícias impotentes. Mas o que sucederá quando ela amanhã deixar de matar por vingança e passar a matar por prazer, tornando-se igual aos energúmenos que hoje persegue?
Eis uma pista que o filme abre sem resolver. E é preocupante a propositada ambiguidade em que nos deixa.

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10 comentários

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De Pedro Correia a 17.11.2007 às 16:14

«À séria» também odeio. Sério.
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De Anónimo a 16.11.2007 às 12:47

expressões macacas que eu odeio (#1): «à séria»
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De Anónimo a 16.11.2007 às 11:42

Palavras que odeio (1295): energúmeno.
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De Pedro Correia a 16.11.2007 às 10:22

Lamento, ó anónimo das 10.06, mas você não percebeu nada do que aqui se escreveu. Ainda bem para si. Pode ir ver o filme à vontade.
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De Anónimo a 16.11.2007 às 10:06

Eu não era para ir ver o filme, mas de qualquer forma agora já sei que ela morre e quem a mata.

Muito obrigado.
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De Anónimo a 15.11.2007 às 23:21

A bala é para mim?
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De Anónimo a 15.11.2007 às 22:14

Caro Pedro Correia, tudo certo até ao seu final. Mas nada de acordo com haver uma ambiguidade final...
“Vi” Erica a começar a querer que Sean Merce, o detective, a persiga e julgue, para a condenar, à medida a que sua consciência e memória de si vai regressando.
E entendi o filme como uma história de amor, já que ela compreende a impotência do homem que vive para apanhar os maus, e por vezes desespera por não o conseguir, tal como ele compreende esse tempo em que a “estranha” toma conta de Erica, como a única forma que essa mulher arranja para sarar a perda que teve. E, no final, é o amor, a compreensão da dor humana com que vivem todos os dias, que sossega o desespero de um e de outro, ao perdoarem-se a si próprios e um ao outro.Ele consegue “redimir” a estranha, obrigando-a a dar-lhe um “bom” tiro. Ela consegue redimir o polícia atolado na maldade humana, ao fazer com que ele a deixe partir.
E grande frase, do polícia, “Women kill their friends, husbands. Shit they love”.
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De Luis Eme a 15.11.2007 às 19:45

A questão é mesmo pertinente, principalmente quando se percebe que quem deve agir cruza os braços...

Depois há o problema do hábito, do poder, e claro do prazer... sem resolução, como no filme.
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De Pedro Correia a 15.11.2007 às 19:17

Muito obrigado, Cristina.
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De Cristina Ribeiro a 15.11.2007 às 19:11

Impressiona a sua capacidade analítica.
Consegue captar tão bem o que o filme nos quis transmitir.
Já se tornou um hábito encontrar aqui neste blogue excelentes críticas de cinema.

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