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“Ditosa Pátria que tal filho teve!”

por henrique pereira dos santos, em 16.08.17

A comparação é injusta.
D. Dinis não fez reforma florestal nenhuma, até porque herdou de seu pai um país quase sem árvores.
Limitou-se, isso sim, a mandar pôr árvores nuns milhares de hectares de areias que se tinham acumulado na costa de Portugal, desde que as arroteias da Alta Idade Média peninsular empurraram milhões de metros cúbicos de sedimentos pelos rios abaixo.
Não prometeu um cadastro de jeito, não alterou pela sexta vez em pouco mais de dez anos um sistema de defesa de floresta contra incêndios, não proibiu a expansão de nenhuma espécie de árvore, não inventou um sistema kafkiano para garantir uma área de fogo controlado acima de qualquer objectivo realista, etc..
D. Dinis limitou-se a florestar, com o seu dinheiro, uns terrenos maninhos, uma coisa que nem de perto nem de longe se aproxima da grandeza do que agora se propõe: obrigar terceiros a gerir terrenos de outros terceiros com o dinheiro de terceiros terceiros.
Quem assume galhardamente os louros de Alqueva, sem medo de chamar a si decisões que foram essencialmente de outros, decretando uma unanimidade nacional sobre o assunto – confesso o meu anti-patriotismo que quebra a unanimidade, ainda hoje acho Alqueva um erro, mesmo sabendo dos seus efeitos positivos, que também os tem – não tem medo de críticas, leva reformas até ao fim, contra tudo, contra todos.
É um orgulho ter governantes que se orgulham de fazer reformas que têm o grande mérito de serem explicitamente contra o que dizem os cientistas, essa corja de inúteis que desconhece as virtudes da ignorância aplicadas à política e que se recusa a aceitar as sábias palavras de Mário Centeno: “Não tente transpor conclusões de artigos científicos para a legislação nacional, porque se tentar fazer isso é um passo para o desastre”.
Claro que quem assim assume responsabilidades em Alqueva, sabe bem que pôr em paralelo Alqueva e a actual Reforma Florestal faz todo o sentido.
Alqueva é um projecto concreto de investimento no território, que captou 11% de todo o dinheiro disponível para o mundo rural, para o aplicar em pouco mais de cem mil hectares, numa evidente recriação do paraíso capitalista: socializar os custos e privatizar os benefícios.
A Reforma da Floresta não tem orçamento definido, muito menos 11% do disponível para o mundo rural por cada 100 mil hectares – compreende-se, para aplicar a mesma lógica de Alqueva aos 6 milhões de hectares de espaços florestais seria necessário investir mais de 500% do disponível – e na verdade pretende fazer o inverso de Alqueva: privatizar os prejuízos e socializar os benefícios, embora haja alguma indefinição sobre que benefícios resultarão da Reforma Florestal.
Não saber que benefícios se vão alcançar com a Reforma Florestal não passa de um pormenor, os benefícios, mesmo que não estejam explícitos, são óbvios e só não os vê quem não quer.
E os que não os querem ver são os mesmos que produziram mais de seiscentas participações na discussão pública da Reforma da Floresta. Agora queixam-se de não verem nenhuma alteração resultante dessa discussão nos documentos posteriores à discussão pública e são incapazes de ver os benefícios que se abaterão sobre o país a partir da Reforma Florestal.
Já para não falar dos que, como eu, não se deram ao trabalho de fazer qualquer contributo formal para a discussão dos diplomas da Reforma da Floresta, apenas escrevendo aqui ou ali sobre o assunto, porque já sabem do que a casa gasta, sabem bem o que o actual ministro fez às agro-ambientais (e à generalidade dos dinheiros para o mundo rural), ou na discussão do financiamento da Rede Natura 2000, para evitar que o dinheiro fugisse das suas clientelas (o leite, o porco, os cereais, enfim, gente que vale votos) para as necessidades reais de gestão do território que produz bens difusos, mas não dá retorno em votos.
Tudo gente sem qualidades, tudo gente que não sabe reconhecer o valor dos outros, tudo gente incapaz de ver a gigantesca Reforma da Floresta que está em curso.
Tudo gente que apenas insinua que foi exactamente a opção de concentrar recursos em Alqueva e outros projectos afins, no apoio à produção, no apoio aos rendimentos históricos dos produtores de cereais, no estabelecimento de um preço político para a água do regadio de Alqueva, em detrimento de um preço real que reflicta todos os custos, foi essa opção de concentrar todos os recursos na produção agrícola que implicou o abandono dos espaços rurais produtores de serviços de ecossistema, mas com problemas sérios de competitividade.
Não têm razão, agora, graças a umas leis, tudo vai mudar, o abandono vai desaparecer e a gestão florestal vai florescer como floresce o olival intensivo no perímetro de rega de Alqueva.
Os proprietários, as indústrias do sector, os investigadores do sector, toda essa gente não sabe o que diz quando diz que a Reforma Florestal “é sempre um esforço inútil, um voo cego a nada”, como diria o Reinaldo Ferreira.
Falando nisso, se fosse vivo, Reinaldo Ferreira provavelmente seria uma boa opção para gerir a Reforma Florestal porque pelo menos reunia a principal qualidade que parece ser necessária para a apoiar: não fazer a mínima ideia do que é gestão florestal.

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Quinze de Agosto

por João Távora, em 15.08.17

NSenhora.jpg

 Rubens

(1577-1640)


Magnificat

 

A minh'alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador
Porque pôs os olhos na humildade da sua Serva:
De hoje em diante me chamarão bem aventurada todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.

A sua misericórdia se estende de geração em geração 
Sobre aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço
E dispersou os soberbos.

Derrubou os poderosos de seus tronos
E exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
E aos ricos despediu de mãos vazias.

Acolheu a Israel, seu servo,
Lembrado da sua misericórdia,
Como tinha prometido a nossos pais,
A Abraão e à sua descendência para sempre

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
Como era no princípio, agora e sempre.

Amém.

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A onda terrorista

por João Távora, em 13.08.17

Patricia Gaspar.jpg

Com meio país em chamas descontroladas não é com espanto que vejo na televisão Patrícia Gaspar a porta-voz da desgraça oficial que nos coube em fado, no velho choradinho da culpa dos pirómanos. Afinal a culpa é dos pirómanos responsáveis pela ignição de 90% dos incêndios, não é do clima, do ordenamento da floresta ou das políticas de prevenção. Trata-se de uma onda terrorista, segundo Marta Soares. Um discurso irracional que convida o pessoal escolher a sua teoria da conspiração e montar umas milícias populares, contra os empresários da madeira queimada ou do aluguer dos helicópteros que pagam os incendiários, contratados a troco de um maço de tabaco e uma garrafa de vinho num recanto da tasca da aldeia. É a fuga para a frente do poder impotente confrontado com a sua proverbial incompetência. Já todos sabíamos que a culpa do nosso triste destino sempre foi dos privados, das bruxas e dos maluquinhos. Contra esta insanidade não há nada a fazer, o que é muito conveniente.

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Insólitos de um país com muitos desmiolados

por Corta-fitas, em 13.08.17

 

Por um mecanismo que me ultrapassa em Portugal parece ser possível que um conjunto minoritário de desmiolados tenha poder de decisão sobre matérias cruciais com impacto negativo para décadas. As nacionalizações deram o pontapé de saída. À subsequente falta de capital substituiu-se o mesmo por dívida com as consequências que se conhecem. Tivemos também as ocupações de terras, outro belo exemplo de estroinice. Duas intervenções do FMI no último quartel do século passado, o que também é interessante. Já neste século tratámos de arranjar mais uma. Esta mais séria e profunda, não fosse a rapaziada desabituar-se de andar a bater com a cabeça na parede. E por estes dias andam por aí umas luminárias para quem as coisas por si só podem correr bem e que para cúmulo resolveram andar de mão dada com os dos amanhãs que cantam. Pergunto: tem de ser assim? Será que não dá para ser ajuizado?

Há por aí agora um novo insólito. Bem fresquinho. Como é sabido os desmiolados nunca se entenderam muito bem com o mercado e com a balança de pagamentos. A aberração da falta de um verdadeiro mercado de arrendamento levou ao apodrecimento das cidades. E a psique de nos acharmos mais do que somos tratou de preterir a produção pelo consumo e o dever pelo direito, pelo que maltratámos muito e por demasiado tempo a balança corrente. No processo os desmiolados lá estavam sempre a berrar e a inviabilizar qualquer solução. Até que finalmente, e como que por uma luz divina (ou quiçá necessidade extrema), todos se convenceram que afinal servir turistas é que era. Mas quando um conjunto celeste de circunstâncias se uniu e desatou a despejar turistas em Portugal com o consequente efeito positivo na balança de pagamentos e no melhoramento das cidades, os estridentes do costume e que nunca dão soluções começaram a berrar. Não nego a existência de problemas, mas será que a situação actual é obra do ocaso ou é antes o resultado da nossa incapacidade de lidar em tempo útil com a balança corrente e com o mercado de arrendamento?

Mas o maior insólito anda a decorrer desde há uns anos. Com uma taxa de natalidade absurdamente baixa e com uma alta drenagem de jovens para o exterior, o país em vez de gastar tempo com a natalidade e de como fixar as pessoas em Portugal entretém-se antes a gastar tempo em temas que desembocam em opções meio bizarras (conhecidas por aí como fracturantes).

 

Pedro Bazaliza
Convidado Especial

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Domingo

por João Távora, em 13.08.17

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus 


Depois de ter saciado a fome à multidão, Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-l’O na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Logo que a despediu, subiu a um monte, para orar a sós. Ao cair da tarde, estava ali sozinho. O barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo. Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais». Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». «Vem!» – disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus. Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!». Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». Logo que subiram para o barco, o vento amainou. Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus». 


Palavra da salvação. 

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A anomalia

por João Távora, em 10.08.17

Cintos.jpg

Quaquer criança ao ver estas três variantes, vai dizer que há duas que não encaixam. Há dois cintos que não vão cumprir na plenitude as suas funções. 

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Má Consciência?

por João Távora, em 10.08.17

O Filipe Nunes Vicente, velho amigo desta casa, está de volta com um novo blogue, o Má Consciência. Perdido ou encontrado durante meses na modalidade de trincadelas sonoras com140 carateres o Filipe concede de novo à velha fórmula da conversa de sala. Eu já reservei o meu lugar. 

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A Política, a Ética e a Justiça

por Vasco Mina, em 09.08.17

As últimas semanas têm sido fecundas em casos com a política como pano de fundo mas que envolvem a Justiça e colocam questões de ética: os Secretários de Estado que aceitaram a oferta da Galp para uma  viagem a Paris para assistir a um jogo de futebol, dirigentes partidários (e autárquicos) que viajaram até à China com o apoio da Huawei e, hoje, um Juíz que terá tomado uma decisão relativa a uma candidatura autárquica quando tem relações de amizade com outro dos candidatos. Não vou, neste post, discutir os fundamentos jurídicos sobre a aceitação de ofertas de empresas fornecedoras (ou tuteladas) nem sobre processos administrativos de candidaturas eleitorais. Muito menos vou fazer qualquer comentário político a cada um dos casos pois entendo que o que está em causa, em cada um estes casos, é um problema ético. Ou seja, é eticamente aceitável que um membro do governo aceite uma oferta de uma viagem de uma empresa privada (quando ainda para mais numa das situações existe um contencioso judicial)? É eticamente aceitável que responsáveis autárquicos aceitem ofertas de viagens de fornecedores de equipamentos (ou soluções tecnológicas) que podem ser adquiridas pelas autarquias nas quais têm responsabilidades de decisão? É eticamente aceitável que um Juíz tome uma decisão sobre um processo quando tem uma relação de proximidade (de amizade mesmo) com uma das partes (seja  direta, ou indiretamente, relacionada com o processo)? Não vale a pena, politicamente, apelar à intervenção da justiça quando, na base, o problema é de natureza ética. É esta que tem de ser questionada!

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Nos primeiros sete meses do ano, o investimento angariado atingiu os 656.226.116,72 euros, mais 14,8% do que os 571.511.345,63 euros registados em igual período de 2016.

Em 2014 o BE apresentou, na AR, uma proposta para eliminação dos vistos gold. Eram então Pedro Passos Coelho e Paulo Portas ,respectivamente, PM e Vice-PM. "Achamos necessário cortar o mal pela raiz e por isso eliminar da legislação a possibilidade de criação de vistos gold”, declarava então Pedro Filipe Soares.

Será que, para o Orçamento de 2018, ainda vão querer manter a posição de cortar o mal pela raíz? Ou já foram definitivamente geringonçados pelo atual PM António Costa? Ou os vistos gold serão um mal quando geridos pela direita e um benefício quando geridos pela esquerda? Definitivamente, o PS “meteu no bolso” o BE

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Gambozinos – Vidas que se cruzam

por Vasco Mina, em 07.08.17

Gambozinos.JPG

 

Estamos no tempo dos campos de férias de jovens. São imensos os que se realizam por todo o país e de várias naturezas. Uns são de inspiração desportiva, outros universitários, outros ainda de inspiração religiosa. O DN na sua edição de sexta-feira última piblica uma reportagem com um desses campos – Os Gambozinos. São de inspiração católica e com o apoio dos Jesuítas. Realizam-se há cerca de 20 anos e juntam jovens. Como refere a notícia os participantes são oriundos de “mundos distintos: os que vêm dos bairros sociais do Pragal e Peniche, os que frequentam os melhores colégios de Lisboa e de Braga. Todos ficam privados de eletricidade e o banho será no rio com sabão azul”. Durante 10 dias todos convivem num espaço ao ar livre e participando em várias atividades. A logística tem a sua importância pois é necessário escolher (muito antecipadamente) um local, prepararas tendas, comprar os alimentos, assegurar a confeção das refeições, transportar os jovens… Não esquecendo o apoio espiritual que é sempre assegurado por um padre jesuíta que está em permanência no campo. Como salienta o Padre Francisco Mota “o tipo de relação e respeito que se cria aqui entre animadores e estes miúdos é impressionante. Somos mais do que um amigo mas menos do que um pai ou uma mãe. Temos aqui a oportunidade de contribuir para a educação deles com uma força enorme. Começamos a ver agora os primeiros filhos de alguns que já foram gambozinos e o impacto é enorme".

O jogo da lama, como mostra a foto, é uma das atividades incontornáveis e nem os monitores e o próprio padre se escapam. Mas também é celebrada missa e a “capela é imaginária, há apenas um tronco que serve de altar”. Mas os Gambozinos não terminam com os campos de férias pois, segundo um dos organizadores (que é um dos meus filhos) "temos uma presença constante e regular no dia-a-dia destes miúdos." Ser Igreja é estar ao serviço e os Gambozinos são um bom exemplo!

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Silly season forever

por Corta-fitas, em 07.08.17

Existem muitas razões para atacar a gerigonça que nos desgoverna. O tempo, esse malfadado elemento que associado à realidade coloca tudo a nu, trata de evidenciar de uma forma mais nítida a natureza dos elementos que formam a massa mal acabada que pastoreia o que resta de Portugal. O ilusionista mor que por aí anda, agora apertado pelas circunstâncias que o vão ultrapassando e com aquelas que fatalmente vêm a caminho, adoptou o descaramento como retórica oficial. O fenómeno não será novo. Todos nós já teremos testemunhado que quando o aperto é muito e o argumento é pouco o disparate desbocado surge como o último recurso do ilusionista.

Acontece porém que, ao contrário dos outros ilusionistas que o antecederam este é mais manhoso e montou uma gerigonça que simultaneamente viabiliza a ilusão por troca de dislates e limita o ruído por troca de prebendas, promovendo assim a efectiva socialização do disparate e o eleva à condição de Verdade. Daí a estupefacção geral perante as contraditórias e tontas reacções oficiais a Tancos ou ao fogo de Pedrogão, ou a história de aumento da dívida que não passa pelo défice, ou as cativações “inesperadas”, ou a redução muito para além do razoável do investimento público. O convívio sereno dos constituintes da gerigonça perante tamanhos absurdos, que no caso dos incêndios chega ao ponto de impor a democrática e muito plural “lei da rolha”, anuncia que passando o disparate a ter via verde e ser muito menos escrutinado vamos viver eternamente em silly season por esta passar a ser o estado natural das coisas.

Permito-me concluir pois que bem poderemos estar perante um problema de saúde pública ao nível da psique. Um pouco à semelhança da vulgarização das dívidas como causa do vício das mesmas, de que a pergunta “Quando é que compras um carro novo?” ou o objectivo oficial de ter um défice público de 3% para uma economia voltada para o endividamento e consumo interno serão bons exemplos, a total vulgarização do disparate pode vir a ser um óptimo veículo para uma sociedade sem referências sólidas ao nível da razão e do argumento. E uma sociedade com escassa capacidade para lidar com a razão e o argumento tem muito menos possibilidades de ser uma sociedade de progresso e bem-estar. Este, mais do que uma nova intervenção externa, pode bem ser o pior legado desta geringonça.

 

Pedro Bazaliza
Convidado Especial

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Ganhámos um jogo de treino

por João Távora, em 06.08.17

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É no mínimo preocupante quando uma equipa que tem ambições de vencer o campeonato faz mais de metade do seu primeiro jogo com um adversário que almeja a manutenção, empastelado no meio campo com baixíssima produção atacante, perdida numa experiência de última hora. O Bruno Fernandes no lugar de Podence, desaparecido nos mesmos terrenos de Adrien, foi um enorme equivoco que nos podia ter custado o empate na primeira parte. Com a equipa assim encolhida o futebol leonino claramente só desemperrou já na segunda parte com Podence à solta no último terço do terreno – o miúdo traz velocidade e rebeldia fundamental naquela zona do campo. É preocupante que Jorge Jesus teime em fazer experiências como se não estivesse em competição, mas está-lhe na massa do sangue protagonizar “surpresas” para mostrar que existe, que é ele que manda. Não havia necessidade - está claro para todos que é ele que manda - e podia ter corrido muito mal. 

À parte dessa inquietação, e para além de não termos sofrido golos, é de destacar o extremo esquerdo Acuña, que exibe uma generosidade excepcional a defender, umas ganas bestiais a atacar, e um faro de golo raro. Temos Leão para atacar o título. Só espero que não percamos o Gelson Martins.

 

Texto publicado originalmente aqui

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Domingo

por João Távora, em 06.08.17

Evangelho (Mt 17,1-9)

 

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz. Nisto apareceram-lhes Moisés e Elias, conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias”. Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus toda a minha complacência. Escutai-o!” Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados e caíram com o rosto em terra. Jesus aproximou-se, tocou neles e disse-lhes: “Levantai-vos, e não tenhais medo”. Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: “Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”.

 

 

Palavra da Salvação.

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SOS Turismo

por João Távora, em 05.08.17

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O Instituto Nacional de Estatística divulgou ontem os números relativos à actividade turística em 2016 em Portugal que espelham o sucesso deste sector de actividade económica: as receitas do turismo cresceram 10,2%, significando um total de 12,7 mil milhões de euros de exportações, que correspondeu a um aumento de 10,7% na oferta, onde se inclui hotéis, turismo rural e alojamento local, correspondendo o peso deste último a 11% do total nacional em dormidas.

Tudo isto significaria apenas boas notícias não fora os problemas que se antevêem com a massificação do Turismo nos maiores destinos turísticos da Europa como é exemplo o caso de Barcelona de onde nos chegam sinais de falência do modelo de negócio. Se é certo que há um aproveitamento político pelos movimentos de extrema-esquerda cuja intenção é tão só a contribuição para um caos que favoreça o crescimento da insatisfação popular, esse facto por si alerta-nos para a fragilidade desta indústria que se sustenta fundamentalmente na paz social… e no bom acolhimento. Um caso preocupante é aquele recente que li algures do apedrejamento de um autocarro panorâmico de turistas por um grupinho de radicais em Barcelona. Um artigo publicado hoje no Expresso enumera uma quantidade de problemas que esta cidade enfrenta, quando as consequências da invasão turística parecem estar a tornar-se numa ameaça real à tranquilidade dos seus habitantes, que já entendem o Turismo como o segundo maior problema da cidade, depois do desemprego. E cá pelo burgo, quem andar atento às redes sociais apercebe-se de uma onda crescente de insatisfação de muitos lisboetas com aquilo que entendem como uma invasão, principalmente oriunda de residentes ou frequentadores de zonas mais emblemáticas da cidade.
Como liberal que sou, isso não me impede de constatar que a prazo teremos um problema grave a enfrentar. Recomendam-se políticas contra a gentrificação dos centros das nossas cidades e a sua consequente descaracterização e abandono (fenómeno que antecede em muito o crescimento do turismo), e preocupa-me a costumada incapacidade dos governos agirem preventivamente com reformas que nos salvaguardem de futuros problemas previsíveis. Políticas de regulação terão de ser empreendidas quanto antes, por forma a preservar a oferta turística existente, diversificando-a e valorizando-a de modo a aumentar o seu rendimento, em vez do seu número. A aposta deverá ser na qualidade no lugar da quantidade. O turismo é uma actividade económica demasiadamente importante para deixarmos que, a prazo, se autodestrua.

 

Fotografia minha.

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Segundo o Expresso de hoje, a lei da maternidade  de substituição (vulgo barrigas de aluguer) entrou em vigor esta semana e já se encontram 53 casais registados. A minha opinião sobre esta lei já aqui e aqui a expressei. Referi então que estava a  “porta aberta para a mercantilização do corpo da mulher”. Bem podem os defensores desta lei defender a tese de que que não haverá negócio pois a mulher gestante não poderá receber qualquer pagamento. Mas quais as formas de garantir que tal não aconteça? Num país onde é roubado material militar de um paiol e morrem 64 pessoas num incêndio em que ninguém assume responsabilidades efetivas em nenhuma das situações, percebe-se bem como irão evoluir os contratos entre a gestante e o casal de beneficiários. Aliás, como o próprio Expresso refere, 25% dos casais candidatos são estrangeiros. Mas a Lei está aprovada e com o apoio da agora candidata à Câmara Municipal de Lisboa  que, lembro, “no final da votação fez sinal de vitória com o polegar para Catarina Martins. A líder do Bloco cruzou o hemiciclo para lhe dar um beijinho”.

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Mais uma crónica na Estação Tola

por João Távora, em 04.08.17

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Se há altura do ano em que a conversa fiada e a especulação sobre a bola é legítima e até recomendável é nesta época estival, também conhecida como tola, em que as equipas se preparam e os adeptos se enchem de expectativas para as competições que tardam em recomeçar. Na verdade por estes dias o calendário futebolístico inicia-se cada vez mais cedo, um fenómeno que também vem acontecendo com o ano lectivo que roubou o mês de Setembro aos nossos miúdos que nem sonham como era ocioso e estruturante o longo Verão dos seus pais. Este ano o Campeonato Nacional que modernamente se chama “Liga” (os portugueses são peritos em mudar os nomes às coisas convencidos que dessa forma as mudam) começa na primeira semana de Agosto, entrando pelas nossas férias adentro, quando os adeptos deviam estar, não nas bancadas dos estádios, mas à beira-mar a ler preguiçosamente novidades sobre reforços milagrosos e as tácticas inexpugnáveis que dizimarão os adversários, atrasando a leitura do clássico que estava prometida para estas férias. 

Mas a verdadeira e grande novidade da época futebolística que se avizinha é sem dúvida o vídeo-árbitro. Este novo actor, mais do que revolucionar o futebol que passará a ter mais uma ou outra paragem inócua, que estou convencido trará mais justiça e transparência à disputa, acima de tudo promete incendiar ainda mais a indústria do comentário futebolístico em grande expansão nos canais da televisão por cabo. A coisa promete, pela simples razão de que muitas das decisões dos árbitros, mesmo com a ajuda do vídeo, continuarão a ser subjectivas e falíveis, dependendo da perspectiva (da cor da camisola) do observador: o milímetro a mais ou a menos do fora de jogo indefinido, a bola na mão ou a mão na bola dentro da grande área - ou a milímetros do seu limite; já para não falar da apreciação à intensidade do contacto do defesa que derruba – ou não - o atacante e da (in)justiça do consequente castigo máximo. Com a agravante das decisões de agora em diante provirem de uma análise ponderada. Por isso não vão faltar teorias da conspiração e toda a sorte de condenações e pressões sobre… o vídeo-árbitro. Se é previsível que o uso das tecnologias irá beneficiar a justeza das decisões em campo e o futebol atacante em geral, o vídeo-árbitro passará ele próprio a ser mais um inevitável protagonista do espectáculo, condenado umas vezes, exaltado outras tantas, em debates insanos por essas televisões afora.
Pela parte que me toca, continuarei a privilegiar o espectáculo do futebol dentro das quatro linhas, onde ele possui uma inegável e entusiasmante beleza. O seu prolongamento será feito à maneira antiga, ao vivo e com alma, à boa conversa ao balcão do café com os vizinhos, ou com os amigos numa aprazível esplanada. Venha daí então o campeonato que desta vez é que vamos ganhar.

 

Publicado originalmente por simpático convite no blogue Delito de Opinião

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Sítios para respirar e onde encontrá-los

por José Mendonça da Cruz, em 03.08.17

No presente clima de spin, tolices de férias e vigarice geral -- de que Costa é o totem, César a coroa, Santos Silva o emblema, e Galamba a caricatura -- encontram-se espaços limpos e saudáveis que servem de magnífica alternativa à desinformação e omissão dos media avençados. A série Endeavour, na Fox Crime, é um desses espaços.

Titulada com o nome do protagonista, Endeavour Morse (seria como um português chamar-se, por exemplo, Empenho Marconi), a série Endeavour é medularmente séria, ao contrário da medular falta de seriedade de quem agora nos pastoreia: não ilude os problemas, não foge a eles, nem sugere que se resolvam com conversetas «sinceras» de cinco minutos, ou por se proclamar que estão resolvidos. 

Ao contrário da fina patine de cultura da canalha que por aí perora, e que estala ao primeiro tropeço ou sempre que é preciso usá-la como arma de arremesso, a série Endeavour é medularmente culta. Pode vir-lhe isso de uma cena de igreja em que uma harpa electrónica toca um estudo de Satie; ou do Wagner que o herói ouve intensamente; ou da família aristocrata que vive na grande casa (que não se chama Brideshead), e cujo apelido é Mortmaigne (não Marchmain), e cuja filha se confessa má e com maus desejos (embora não se chame Julia); ou pode vir de uma citação deliciosa de Jaws, em que a menina vai nadar à noite, o menino fica bêbedo em terra, mas quem morre às mandíbulas de uma fera é ele. O enredo policial e com gente verdadeira, contado num tempo e ritmo muito europeu e sábio, está salpicado destes adornos. Faz bem à alma e ali respira-se. A seriedade e a competência estão a léguas da indigência ética e mental que agora nos desregula.

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254 (ou da inovação avaliada por reaccionários)

por henrique pereira dos santos, em 03.08.17

Este é um post em causa própria (não como profissional mas como dirigente pro bono de uma ONG interessado no assunto).

Há já uns anos que tenho andado envolvido, quer profissionalmente, quer civicamente, na defesa do pastoreio como instrumento de gestão da paisagem e contributo para uma resposta socialmente útil às alterações sócio-económicas das últimas décadas, que estão no origem do regime de fogos que existe em Portugal.

Nada me prende a uma visão saudosista, folclórica, etnográfica e reaccionária do pastoreio de percurso tradicional, ou a outras formas de pastoreio que eram fundamentais na gestão da fertilidade até à descoberta da síntese industrial da amónia, permitindo a produção barata de adubos azotados, a base em que assenta a actual alimentação da humanidade.

A única vez (sou sobretudo um intelectual, não sou um realizador) em que consegui estar envolvido na apliação prática destas ideias, com a Aguiar Floresta e financiamento do Fundo EDP de Biodiversidade (que descanse em paz), conseguimos fazer uma avaliação bastante concreta de três questões centrais:

1) Existem, ou não, maneiras simples, baratas e eficazes de fazer contenção de cabras, em cercados amovíveis, em territórios difíceis como os das nossas serras?

2) A aplicação de elevados encabeçamentos (no caso, cerca de 800 cabras por hectare) por períodos curtos tem implicações ambientais negativas relevantes, quer para a flora e vegetação, quer para o solo?

3) Os custos de gestão usando a técnica de pastoreio dirigido são comparáveis às alternativas para a gestão de combustíveis (corte ou fogo)?

Tal como estive eu envolvido neste projecto, há outras pessoas envolvidas noutros projectos que usam o pastoreio como instrumento de gestão, como é o caso do Hugo Novo, da 5ª Lógica, do Júlio Ricardo, na cooperativa Terra Chã, José Mota, na URZE, Joaquim Dantas, Território Com Vida e vários outros que podem expandir a ideia e a prática de um pastoreio de gestão ou que podem dar solidez a este trabalho, avaliando-o, escrutinando-o e produzindo resultados palpáveis e replicáveis.

Este conjunto de organizações juntaram-se para fazer uma candidatura a uma medida de apoio ao mundo rural, os chamados grupos operacionais, medida essa que tem como objectivo promover "O funcionamento de Grupos Operacionais que desenvolvam, em cooperação, um plano de ação para realizar projetos de inovação que respondam a problemas concretos ou oportunidades que se colocam à produção e que contribuam para atingir os objetivos e prioridades do Desenvolvimento Rural, nas áreas temáticas consideradas prioritárias pelo setor tendo em vista a produtividade e sustentabilidade agrícolas, conforme consideradas na PEI".

Numa primeira apreciação as brilhantes cabeças que tomam decisões sobre milhões atribuíram zero de inovação ao que esta parceria propunha porque o ""Grupo Operacionais"não conduz à inovação de um novo produto, processo/tecnologia ou marketing face aos existentes atualmente. Verifica-se que o plano de ação assenta no desenvolvimento de metodologias de pastoreio dirigido como estratégia para a otimização da produtividade e do incremento da caprinicultura em sistema extensivo em articulação com a aplicação de boas práticas de gestão ambiental. Conclui-se assim que o plano de ação não tem como objetivo introduzir um novo produto no mercado, atendendo a que não é feita qualquer referencia direta a um novo produto. Quanto à avaliação de um novo processo ou método de produção, considera-se que o plano de ação não apresenta na metodologia de abordagem a identificação de um método ou prática de produção novos ou melhorados, não se verificando alterações significativas ao modo de produção animal já existente, nomeadamente no que respeita às técnicas de pastoreio. Salienta-se que o plano de ação incide maioritariamente em medidas de "avaliação", não sendo apresentado um plano de pastoreio efetivo e diferenciado do já praticado. Não é apresentada uma nova estratégia de marketing de posicionamento junto do consumidor ou em mercados previamente identificados".

A profunda ignorância dos avaliadores não lhes permitiu sequer perceber que em qualquer das experiências que listei acima havia uma experiência única de transformação de uma actividade tradicional num instrumento contemporâneo de gestão do território que respondia a uma das mais graves falhas de mercado do mundo rural português: a ausência de gestão de quase dois terços do território, por falta de retorno para os gestores e proprietários.

Depois da reclamação feita, demonstrando que esta avaliação não tinha pés nem cabeça e que violava objectivamente a definição de inovação que estava nos regulamentos, foi-nos dada parcialmente razão e passámos a saber que há, em Portugal, 253 projectos para a criação de grupos operacionais que são mais inovadores e relevantes para o mundo rural que ter uma rede de transformação da pastorícia num instrumento contemporâneo de gestão dos territórios marginais, contribuindo para a solução de um problema a que a sociedade e o Estado não têm sabido dar resposta: a gestão socialmente útil do fogo nas nossas paisagens.

Contra todas as regras, a lista dos 253 projectos (e dos mais não sei quantos mais mal classificados que este sobre o qual escrevo) ainda não está disponível, não sendo por isso possível ainda entender que inovações maravilhosas existem em Portugal que não existam na Galiza, onde um projecto de pastoreio estará em primeiro lugar no mesmo tipo de candidaturas, e que sejam mais relevantes e inovadores para o mundo rural.

Mas a julgar pelo enlevo e carinho com que foi tratada a fantasia de andar a fazer monitorização de espécies com drones (não estou a ser irónico, um milhão de euros aprovado para isso) restam-me poucas dúvidas sobre a responsabilidade da loucura normal que campeia nos decisores dos fundos comunitários nos resultados desastrosas na gestão do mundo rural e do fogo: ter uma organização a brincar aos drones é muito, mas muito mais sexy e inovador que um monte de cabras a comer mato e estrumar montes de forma sustentável e, sobretudo, muito mais relevante para o país e as pessoas que por aqui vivem.

Não faço a menor ideia de quem são as pessoas que tomam estas decisões, mas espero que consigam dormir de noite quando perceberem a responsabilidade concreta que lhes cabe no desespero de quem tem de viver lado a lado com os barris de pólvora que ajudaram a encher.

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A querela da propriedade a propósito de gestão florestal

por henrique pereira dos santos, em 02.08.17

Há muitos anos que a nossa escola florestal levanta a questão da propriedade como questão central para uma gestão correcta dos recursos.

Há razões históricas para que assim seja - a nossa escola florestal nasce da escola alemã de silvicultura -, há vantagem técnica em alguns modelos de exploração florestal mais intensivos, mas a verdade é que não há evidência empírica de que a dimensão da propriedade seja central nas nossas condições.

Por um lado, a grande maioria do valor acrescentado da produção florestal em Portugal está nas regiões de minifundio (não porque haja vantagem da pequena propriedade para a produção florestal, mas porque as regiões com maior produtividade primária favoreceram historicamente o parcelamente da propriedade), por outro as economias de escala são relevantes quando o investimento é elevado e os custos de operação são baixos, como acontece na actividade florestal da generalidade da Europa, nomeadamente na mãe Alemanha em que os nossos florestais foram buscar os fundamentos da sua profissão, mas não é o caso nas nossas condições.

Como a generalidade dos nossos florestais sempre trabalharam para o Estado, as considerações económicas sempre andaram atrás das considerações técnicas na sua actividade e, esse já é um problema mais geral do país, a avaliação de resultados sempre foi miserável, levando a que a experiência não tivesse conduzido, como deveria, a uma maior adaptação dos princípios da silvicultura da Europa central às nossas condições.

Ora, nas nossas condições, os custos operacionais são muito elevados porque a gestão de matos tem de ser feita em intervalos curtos, dada a nossa elevada produtividade primária, o que elimina grande parte das vantagens do aumento de escala: uma operação deficitária feita a grande escala só aumenta a escala do prejuízo, não resolve o problema do prejuízo, excepto se esse aumento de escala permitir baixar o custo dessa operação.

É o que acontece na exploração intensiva de eucalipto feita pelas celuloses, em que a escala da propriedade é uma condição necessária para permitir operações pesadas e mecanizadas de controlo de matos. Mas sendo uma condição necessária, não é suficiente, é preciso que as condições do terreno permitam o uso dessas técnicas (o que pode não acontecer em zonas muito declivosas, com elevada pedregosidade, etc.) e é preciso que o preço de venda dos produtos pague os custos globais de gestão. Apesar da diminuição relativa do preço do controlo de matos por hectare esta última condição está longe de acontecer em grande parte das zonas que não têm boa produtividade de eucalipto.

É neste ponto da discussão que normalmente me dizem: "De igual modo é oportuno perguntar-te como lidarás com os proprietários que não desejem ter um aceiro nem um corta-fogo nos seus prédios, por quererem maximizar a sua produção lenhosa".

Eu fico sempre pasmado com este argumento, porque a EDP e a REN demonstram todos os dias como se faz: o estabelecimento legal de uma servidão (como acontece com as linhas eléctricas), um edital, uma negociação com os proprietários, o pagamento das perdas de rendimento, a gestão directa ou contratada com o proprietário da vegetação por baixo das linhas e as linhas eléctricas passam sem problemas de maior nas zonas de minifundio.

O problema é que o Estado quer fazer as coisas de maneira diferente, quer estabelecer de facto uma servidão administrativa para as zonas em que entende que deve haver gestão de combustíveis para uma gestão sensata do fogo mas, e aqui está o busílis, quer passar os custos dessa opção para os proprietários.

E portanto inventa essa ideia absurda de que a propriedade deve ter dimensão suficiente para que o proprietário consiga absorver estes custos na gestão global da propriedade, sem cuidar do facto da exploração da restante propriedade, se não for uma produção de eucalipto intensiva, uma ou outra zona de pinhal e algum montado de sobro (porque do de azinho é melhor não falar muito), ser, ela própria, deficitária.

Não, não é um problema de propriedade que nos tolhe na gestão do fogo, é antes um problema de falta de rentabilidade da actividade de produção florestal, a que se soma uma grande falta de respeito do Estado pela propriedade e pelos proprietários.

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Da superioridade moral

por henrique pereira dos santos, em 31.07.17

Equilibradamente, alguém cita o seu próprio trabalho científico, mais que escrutinado internacionalmente pelas regras normais: "a estrutura florestal, incluindo a quantidade de combustível disponível para arder, é muito mais relevante q a composição do estrato arbóreo. Por isso é que pinheiro, eucalipto e sobreiro não se distinguem entre si, o que se distingue entre si são as variantes estruturais de aberto-alto, denso-fechado, etc. q se sobrepõem à espécie".

Muita gente de boa-fé e interessada em contribuir para uma gestão sensata e socialmente útil do fogo em Portugal retira ilações das conclusões citadas, a principal das quais é dizer que muito mais que a espécie arbórea dominante, é para a gestão dos povoamentos que interessa olhar com atenção.

Esse olhar com atenção pode suscitar inúmeras linhas de actuação e diferentes políticas, há quem defenda a remuneração dos serviços de ecossistema prestados pelos gestores do território (como eu), há quem tenha abordagens mais técnicas limitando-se a apontar as condições de boa gestão, mas sem se preocupar muito com custos e proveitos, há quem esteja convencido de que o que faz falta é legislação e repressão que obrigue os proprietários a fazer o que é sua responsabilidade social, enfim, há um conjunto muito largo de hipóteses para a definição de políticas, partindo dos mesmos factos, os que estão descritos no primeiro parágrafo.

E depois há o pensamento mágico.

Parte-se uma premissa (como Lysenko partiu da premissa de que a genética tinha de estar errada por ser contrária a princípios fundamentais do marxismo, conduzindo milhares de pessoas à fome e à morte), recusa-se qualquer discussão sobre a premissa, com base em argumentos do tipo "só não vê quem não quer" ou "quem diz isso é porque está a ser pago por eles" e coisas que tal, e desenvolve-se uma estratégia que permita proteger as conviccções do confronto com os factos.

A primeira fase consiste, normalmente, numa argumentação suave e amiga no sentido de que, ainda que seja verdade, não se pode dizer o que diz o primeiro parágrafo porque isso beneficia o eucalipto.

Se alguém argumenta que quando morrem 64 pessoas é demasiado mesquinho centrar-se na oportunidade que isso constitui para fazer avançar a agenda política relacionada com o controlo do eucalipto, rapidamente se passa a uma contra-argumentação agressiva e muito centrada em comentários pessoais.

O passo seguinte, porque os factos são o que são, é transformar o argumento inicial, que está no primeiro parágrafo (e que é irrefutável com conhecimento hoje existente) num argumento que seja facilmente contestável, fazendo equivaler o argumento inicial a um argumento conveniente: "arde tudo igual, as espécies ardem todas da mesma maneira". É tentador porque parece uma mera simplificação do que está dito no primeiro parágrafo, mas é uma grosseira deturpação que permite assacar a terceiros um argumento totalmente errado e facilmente contestado através da demonstração de que as espécies não ardem de forma igual.

A partir daí o Céu é o limite na argumentação, podendo facilmente chegar onde se quer: "Quantitativamente o mato é mais importante que a espécie arbórea directriz...ok...e daí!? Sim há mais reacendimentos em floresta autóctone...e daí!? O que interessa é termos um território heterogéneo...bem ordenado com descontinuidades...e andamos apenas a vociferar que (quantitativamente) a culpa não é do Eucalipto...Quantitativamente n é...mas em termos de ordenamento é...e n é porque meia dúzia de eucaliptais abandonados desenvolvem giestais e medronhais que o" eucaliptal" eqt sistema florestal de produção é tão ou mais biodiverso ou tão ou menos fire prone".

Num passe de mágica passa-se de uma discussão racional sobre fogos, estruturada com base no método científico, para uma discussão sobre os efeitos globais da produção de eucalipto no território, estruturada num pensamento mágico e afirmações desconexas que visa usar o problema da gestão do fogo no avanço da agenda anti-eucalipto ou na agenda de um mítico paraíso de biodiversidade na terra cuja gestão ninguém tem de pagar.

Mediaticamente funciona na perfeição.

Mas no próximo fogo trágico, e ele virá, mais tarde ou mais cedo, não se esqueçam do que andaram a dizer e fazer e do esforço posto no desvio de atenções e recursos da verdadeira resolução do problema para fazer avançar a vossa agenda política.

As boas intenções sempre foram armas de destruição maciça quando a sua aplicação passou a ser mais importante que os seus efeitos reais sobre a vida concreta das pessoas comuns, em nome de amanhãs que cantariam eternamente.

Essa é a vossa responsabiilidade.

A que escolho é centrar-me nas melhores das soluções exequíveis para que as pessoas possam viver a sua vida com mais dignidade no sentido de que "não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá".

Se há coisa que recuso é reconhecer a superiodade moral de que se reivindicam os bem intencionados que preferem carvalhos a eucaliptos.

Primeiro por nisso nada nos distingue. Segundo porque não há nenhuma superioridade moral em proclamar boas intenções, mas sim em as praticar consequentemente.

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